uma foto abandonada

The Frame Untaken” by Ricky Toledano

traduzido por Liane Sarmento Magalhães

A foto que preferi não tirar: a de uma menininha andando em uma corda bamba improvisada e frouxa, dois metros acima do chão. Balançando ao som da música enquanto se equilibra na corda, temo que ela caia dançando um break assustador, mas ela se equilibra com uma vara de bambu como se estivesse firme, completamente segura, mesmo oscilando no ar de um lado para o outro como o mais rápido dos pêndulos. É uma façanha tão incrível que peço para o carro parar, enquanto nossos pescoços giram para trás para não deixar de vê-la através da janela suja. Estávamos próximos de nosso destino na Cidade Velha e podíamos facilmente caminhar o resto do trajeto, então senti que simplesmente tinha que ver aquela performance de rua e depositar minha contribuição no pote de dinheiro colocado no chão empoeirado, logo abaixo do que me parecia ser uma criança voadora dos seus seis anos com a postura esvoaçante de um beija-flor.

Quando saímos do carro, ela havia parado de balançar e já estava se movendo na corda para trás e para a frente, usando engenhosamente um aro de pneu de bicicleta, como se estivesse pedalando. Como antenas em cada lado de sua cabeça, estou certo de que as tranças negras de seu penteado ajudam no equilíbrio tanto quanto a vara de bambu. Sua expressão é de extrema concentração, mas é difícil vê-la por trás dos enormes óculos de sol e do boné cravejado de lantejoulas, que também é grande demais para sua cabeça e protege seu rosto da luz forte do meio-dia. Sua camiseta e jeans não têm a mesma elegância teatral do seu chapéu; estão muito sujos, assim como a pele ressecada de seus pezinhos, que são tudo que a conecta a um mundo perigoso em sua performance de equilíbrio.

“Eles fazem isso por comida, bhai. Vamos ajudá-los”, disse meu amigo ao meu ouvido no meio da multidão. Sua sugestão era desnecessária; eu já estava procurando minha carteira no bolso, boquiaberto com a performance da menina. Meu queixo caído surpreendeu meu amigo: “- Vai dizer que nunca viu isso antes?”

“Nunca! Eu nunca tinha visto nada parecido – em lugar nenhum!”

“Mas isso também existe em Delhi. Você nunca os viu em Chandni Chowk aos domingos?” Ele me perguntou, incrédulo.

O instrutor da menina parece ser um parente adolescente, vestido tão informalmente quanto ela, exceto pela taqiyah muçulmana. Há um outro rapaz mais velho, vestindo um pijama kurta e barrete totalmente brancos, operando o que chamávamos na minha época de boom box, uma caixa de som. Mudando as canções de acordo com os movimentos da menina, a crueza de seu traje branco contra o fundo de cimento e terracota também teria dado uma bela fotografia, mas nada como o espetáculo da menina, que em tão tenra idade tem um controle de respiração, mente e corpo tão incrível que cada motociclista que passa para e se inclina para jogar moedas no pote. Do outro lado da rua forma-se uma pequena multidão de todas as idades, da qual eu saio para me esgueirar temeroso pela rua movimentada, entre freadas de carros e motos, para colocar dinheiro no pote.

É impossível que ela consiga se concentrar com todo esse movimento ao seu redor! – penso eu. Nem por uma fração de segundo ela pode permitir que sua concentração se perturbe por ouvir o som das moedas caindo no pote, menos ainda por ver quem coloca dinheiro ou quanto coloca. Sua mente não deve se distrair com as águias voando no alto; com as emanações de rosa, chandan (sândalo) e urina; com as vaquinhas vagando pela rua; com as risadas das crianças. Muito menos por notar o firangi (gringo) curioso, vestido com uma kurta azul claro, saltando de um carro para tirar sua foto.

village boys armed with marbles by Ricky Toledano

Controlando firmemente seus sentidos, sua atenção é impenetrável. Com tão pouca idade ela já tem um domínio do corpo, respiração e mente que eu jamais terei, mesmo depois de anos praticando ioga – isso é, se isso é tudo o que se pretende alcançar com ioga.

Não é. Se fosse, a disciplina de cada ginasta ou atleta seria suficiente para que se tornassem grandes almas.

Por isso o espetáculo serviu como uma agradável lição de humildade e um lembrete de que todos nascem não apenas com seus próprios desafios invisíveis, mas com as ferramentas para superá-los. Ele também produziu outro pensamento inevitável, porém impossível de ser verbalizado: – E se ela cair?

“Essas crianças estão por toda a Índia, bhai. Elas têm muito talento! Eu gostaria de poder levar todas elas, oferecer treinamento profissional. Ninguém poderia detê-las! Elas voariam alto!”

“Assim como você, bhai?” Eu sorri, chegando ao nosso destino depois de ter espiado as ruas antigas, já adivinhando em qual delas deveria procurar por halwa e bhujia caseiros (doces e salgadinhos), que estão desaparecendo porque os clientes preferem os produtos de embalagem reluzente para comer bem longe das antigas cidades da Índia. Para alguém como meu amigo que planeja com tanta ansiedade viajar para os Estados Unidos e deixar seu país, tenho sorte de que ele ainda sinta nostalgia pela velha Índia de sua infância, porque é um gosto que ambos compartilhamos. Ele também rejeitou shoppings e alimentos embalados como produtos farmacêuticos há muito tempo – e me ensinou como transitar bem pelas ruas confusas. Graças aos seus ensinamentos sobre busca à moda antiga, aprendi a usar o nariz, o instinto e a espionagem, observando onde as pessoas se aglomeram e o que carregam nas ruas movimentadas. Parecemos dois mangustos caçando às escondidas; muito pouco escapa de nossos desejos em um bazar tradicional.

“Você não quer que eu vá para os EUA”, ele rebateu.

“Não! Claro que não é isso! É uma oportunidade que você não pode desperdiçar. O que não quero é que você pense que está indo para um lugar melhor”, retruquei, sem nunca perder a oportunidade de lembrá-lo de que meu país não é o paraíso que ele imagina, já que meu jovem amigo duvida que possa existir algo desagradável na nação mais rica e poderosa do mundo, um lugar sem as performances circenses de rua, um lugar onde tudo funciona.

Ou pelo menos é o que ele pensa.

Fiz uma careta enquanto tentava descobrir por onde começar a oferecer uma explicação – se é que havia uma – enquanto estávamos em um restaurante muito humilde, de paredes menos brancas que a manteiga branca servida com bajra roti (pão de painço na chapa) em thalis (bandejas) razoavelmente limpos, com o mais picante dos catnis (chutney).

Uma idosa vendia na rua as tradicionais diyas (lamparinas) de barro em seu carrinho. Macacos andavam pelos fios, seguindo um vendedor de cenouras, rabanetes e bananas. Um policial conversava com meninos em motocicletas nas sombras iluminadas pelas cores vivas de uma loja de saris. As pessoas falavam alto, em um volume e tom que os americanos poderiam confundir com hostilidade pela ausência de sorrisos, mas parecia haver uma tímida troca de risadas entre os pedestres que olhavam e falavam uns com os outros. Para onde quer que se olhasse os rostos mostravam contentamento ou emoções visíveis. Ninguém estava sozinho, porque todos olhavam para todos, em todos os lugares – seus olhos se conectando com formalidade ou familiaridade, como se o simples ato de andar na rua conspirasse para formar um jogo.

Essas trocas poderiam acontecer em mais de um país que conheço, incluindo o Brasil, meu lar por mais de vinte anos, mas não nos Estados Unidos – algo que teria sido muito difícil de explicar, até que virei a cabeça para chamar o garçom.

Como um gesto natural, meus olhos encontraram os de outros clientes, que por sua vez também aproveitaram meu movimento para olhar os meus. E foi no feliz acaso de olhar nos olhos de estranhos que percebi que seria capaz de oferecer uma explicação ao meu amigo mais jovem.

“Quando eu era criança, lembro-me de olhar para todos no metrô e ninguém nunca olhar de volta. Lembro-me claramente de pensar que algo estava errado; era impossível que as pessoas não pudessem me ver. Eu via todos eles.”

“Do que você está falando?” ele disparou.

“Você vai ver quando chegar lá. Eles fingem não ver um ao outro. Para mim é difícil descrever e para você imaginar, mas eles não se olham; evitam tocar-se; mantêm distância, garantindo um anel de privacidade. Você vai sentir isso imediatamente: ninguém vai olhar para você, mas todos vão vê-lo e sair do seu caminho. Acho isso muito irritante toda vez que volto.”

“Hum”, suspirou meu amigo, cuja lista de gestos irritantes era oposta à que eu havia acabado de mencionar, incluindo o modo como seus conterrâneos sempre esbarravam nele ou o interrompiam sem qualquer consideração. Sentado do outro lado da mesa, ele tentava imaginar um mundo do outro lado do planeta, um lugar de oportunidades que ele sentia não existir em sua terra natal; um lugar onde as pessoas respeitavam os direitos dos outros; um lugar onde os indivíduos realmente tinham direitos. Em sua imaginação é um lugar onde tudo é seguro, limpo, bonito e organizado.

Ou pelo menos é o que ele pensa.

É tudo o que ele deseja. Mas também é um lugar onde as pessoas não estão apenas andando por aí cercadas por muros, mas também estão construindo muros de verdade, barricadas muito mais feias e perniciosas do que os vestígios ancestrais da cidade murada que nos rodeia, com suas grandes barreiras que ao longo dos séculos passaram por uma fartura de construções e reconstruções maior do que a de tigelas em nosso thali. A separação do espaço pode ser um esforço fútil da humanidade desde tempos imemoriais, a construção de divisórias para manter os indesejáveis do lado de fora, mas tenho a impressão oposta ao caminhar pelas ruas da Cidade Velha: as ruínas daquelas paredes antigas parecem tentar sem sucesso esconder as pessoas, especialmente aquelas como a família circense voadora.

thali – stock photo

“Sentei-me ao lado de um homem Punjabi em um avião. Ele se naturalizou americano e havia vivido lá muito mais tempo que eu. Era dono de um posto de gasolina e havia formado uma família no país. Provavelmente ele era o homem que você deseja ser algum dia. Ele havia lidado com todo o preconceito contra si ao longo dos anos: com as rejeições; com o assédio a seus filhos; com a polícia que havia se recusado a ajudá-lo quando seu negócio tinha sido assaltado. Ele me disse algo que nunca esquecerei: ‘A América é um lugar engraçado: os ricos não são felizes; os pobres não são felizes; ninguém é feliz. Eles são tão agressivos. É como se não houvesse amor em seus corações’. Naturalmente era uma generalização grosseira, mas me chocou. De alguma forma eu sabia exatamente do que ele estava falando – o que pode dizer ainda mais sobre um lugar como o seu país do que sobre o meu.”

“O que também é uma generalização grosseira!” – ele respondeu.

Engoli o cchaacch (batida salgada de leitelho), não somente com sementes de cominho, mas com as sementes de um pensamento: suponho que seja este o risco de uma fotografia, capturar pessoas nos quatro limites de uma moldura. Em contemplação, minha mente vagou sinuosamente de volta para a foto que eu não tirei, recusando-se a enquadrar a pequena artista.

Fazendo uma pausa antes de levantar comicamente minha voz com autoridade para imitar o patriarca de sua família, apontei meu dedo para o espaço entre seus olhos: “Agora me escute, jovem …” Meu amigo sorriu, quase cuspindo água antes de receber o sermão: “Vou sentir sua falta. Por favor, lembre-se de que você pode viajar para o outro lado do mundo, pode tentar correr para os cantos deste universo, mas nunca vai escapar de si mesmo. Nós nos levamos aonde formos, junto com todos os nossos demônios pessoais. Não há lugar para correr e se esconder e não há nada que possamos consumir para nos fazer felizes, para nos tornar completos. Já somos completos. Esta é a mensagem dos próprios Upanishads, e se diz que é a própria missão da vida perceber que nada está faltando.”

Ficando em silêncio e olhando para longe de mim e para as pessoas ao nosso redor nas mesas vizinhas, foi a vez de ele fazer uma careta e pensar. O sermão havia atingido o alvo, mas ele era um jovem inteligente e nada disposto a me deixar lhe passar um sermão sobre uma sabedoria mais fácil de verbalizar do que praticar. Ele se virou bruscamente para mim, usando a emboscada da analogia: “Então, de acordo com você, não há ‘nada faltando’ na vida daquela menina?”

“Tenho certeza de que faltam muitas coisas” – engoli em seco – “mas também tenho certeza de que o foco no que ela tem – e não no que ela não tem – sempre a tornará mais rica do que pessoas como nós, que sempre precisam de mais – catni – para serem felizes.” Lambi a iguaria dos meus dedos. “Vou pedir mais.”

Depois de ter consumido mais açúcar e sal em um dia do que o costumeiro em um mês, à noite a mãe do meu amigo fez para mim um jarro de nimbu pani (agua com limão), sem nenhum dos venenos brancos, para lavar meus pecados. Estava mais do que saciado pelos vestígios de um dia na Cidade Velha, mas não por suas visões, que desembrulhei durante meu tempo de silêncio enquanto o sol se punha. Em minha mente revisitei a garotinha na corda, olhando para ela através da moldura preta das minhas lentes, lembrando de como era difícil encontrar um ângulo harmonioso para um objeto em movimento, mas também de que havia algo de perturbador em confiná-la na limitação de quatro bordas sem saber nada sobre sua história. Seria cometer uma espécie de insinceridade. Um verdadeiro fotógrafo não pode vacilar assim.

Mas o que realmente me impediu de acionar a câmera, e me fez colocá-la de volta no estojo, perdendo o que poderia ter sido a foto perfeita, uma cápsula do tempo, foi uma sensação semelhante à que ocorre pouco antes de se colher uma flor, quando a dúvida interfere na escolha de se possuir a beleza destruindo-a. Minha indulgência também havia se tornado o meu próprio ato de equilíbrio: eu também estava na corda bamba, uma corda da qual caí muitas vezes na vida ao escolher entre capturar um objeto e aprender a deixá-lo ir.

Havia mais beleza em apreciar uma imagem dela sem moldura, um retrato da dualidade: o indivíduo que é ao mesmo tempo limitado e ilimitado. Ela se misturava a um mundo sem costuras ao seu redor em todas as direções, desde o cerúleo infinito acima dela até a rua sob seus pés, que poderia até mesmo me levar para casa, através do mundo. Então havia as paredes.

As paredes não separam o espaço; elas existem no espaço; portanto, não separam nada. Eu contemplei a máxima védica que me levou pela primeira vez à Índia com mais do que apenas uma curiosidade intelectual, tantos anos atrás. Foram as palavras pronunciadas no momento certo que mudaram minha trajetória, levando-me a uma direção inimaginável no estudo do Vedanta, um interesse nem um pouco compartilhado pelo meu amigo, um engenheiro que pode até ser inteligente demais para seu próprio bem, pela forma como ele rapidamente procurou falhas nos argumentos, mesmo aqueles não totalmente compreendidos.

Prestes a embarcar para os Estados Unidos, ele estava mais interessado na tradição de muitos outros indianos que viajaram para o exterior do que na Tradição – um corpo de conhecimento para o qual ele não via utilidade. Apesar de tudo, pronunciei as palavras de sabedoria, mesmo que desajeitadamente durante o almoço, porque por mais que tivesse escolhido outra cultura, estendendo uma corda ambiciosamente distante de casa, vi que meu amigo já estava lá em cima, começando a caminhar por aquela corda familiar e traiçoeira. Foi por isso que corri para cobrir o chão abaixo dele com palavras, para que amortecessem as inevitáveis quedas que nos trazem as decepções necessárias para compreender que a felicidade não pode ser adquirida; só pode ser revelada, porque não é um lugar no final de uma corda; está em um lugar tão próximo que não dá para ver; é um lugar que não é um lugar.

E como meu amigo, estou certo de que a moldura de uma fotografia não definiria a menina mais do que os muros a conterão no futuro. Ela vai ultrapassá-los. Não estarei lá para aplaudir esse dia de sua vida, como fizemos parados na rua, mas sei que ela vai fazê-lo, depois de aprender tudo o que há para saber sobre as regras antes de quebrá-las, como estudar a gravidade para aprender a voar.

Foi então que abri os olhos, voltando para os últimos feixes de luz do dia ao meu redor, e não para os que brilhavam dentro da minha cabeça. Sorri, porque não pude deixar de refletir que poderia quebrar uma velha regra ao descobrir seu oposto: pode muito bem ser que algumas palavras valham mais que mil imagens.

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A native of Chicago, Ricky Toledano has lived in Rio de Janeiro, Brazil for over twenty years as a writer, translator and teacher. [a]multipicity is multi-lingual collection of reflections through the humanities.

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