O Assassinato de joão gordo

traduzido por Liane Sarmento Magalhães

Revoltado com a notícia de que João Gordo havia sido brutalmente cortado deste mundo, fui enfático ao afirmar que a árvore amada não tinha sido simplesmente morta: “Ela foi assassinada”. Já podia imaginar o toco no meio da pracinha arenosa, antes mesmo de chegarmos para prestar nossas homenagens na beira da orla abandonada da folclórica ilha de Paquetá.

“Qual é a diferença?” perguntou meu amigo, confuso com a minha colocação, que não fazia muito sentido em português.

Se estivéssemos falando em inglês não teria havido dúvida, mas tive de explicar que o cognato “assassinado” simplesmente não transmitia a mesma gravidade do crime que eu precisava descrever um assassinato político, uma execução cometida para silenciar um projeto de poder. Apesar de tudo, alegar o assassinato de uma árvore soava tão peculiar em inglês quanto em português.

No entanto, João Gordo não era uma árvore qualquer.

Sua execução foi planejada especificamente para coagir certas pessoas, algumas das mesmas pessoas que haviam perdido um líder dois anos antes. E é por isso que não demorou mais do que o segundo em que meus olhos se desviaram do pôr do sol, na direção das luzes sobre as águas da Baía de Guanabara, para que meu amigo percebesse que eu estava comparando um crime com outro, um assassinato ocorrido em nosso próprio bairro, no Centro do Rio de Janeiro.

Em 14 de março de 2018, enquanto a vereadora Marielle Franco participava da mesa redonda “Jovens negras movendo estruturas” na Casa das Pretas, eu passei pela porta no meu caminho diário para casa em um dos bairros mais antigos do centro da cidade. Eu nunca tinha ouvido falar da ONG dedicada ao crescimento cultural, intelectual e profissional das mulheres negras, assim como não tinha ouvido falar da política socialista e ativista de direitos humanos, até aquela noite fatal em que ela e seu motorista, Anderson Pedro Gomes, foram cruelmente abatidos por nove balas que partiram de um carro com dois homens que os seguiram na saída daquela reunião.

Em questão de horas seu nome alcançou não apenas a cidade, mas também o mundo, com uma repercussão que assassinos raramente esperam ao cometer esse tipo de crime. Pois, embora um assassinato possa ser a morte celebrada de um inimigo, é também o nascimento eminente de um fantasma. E os fantasmas são adversários formidáveis, não somente porque nunca mentem, mas porque nunca morrem e não vão descansar até que sua morte seja esclarecida – como o jovem Hamlet descobriu no primeiro ato da peça de Shakespeare.

Na verdade, os fantasmas estão dentro de nós, simplesmente nos dizendo verdades que muitas vezes são indizíveis. É claro que Hamlet iria suspeitar do casamento de sua mãe com seu tio logo após a morte de seu pai, o rei. Era parte de uma conspiração hedionda que já assombrava a todos, exatamente da mesma forma que os cariocas rapidamente imaginaram quem estava por trás do assassinato de Marielle Franco. Seu tweet na véspera de seu assassinato foi uma boa pista: “Mais um homicídio de um jovem que pode estar entrando para a conta da PM. Matheus Melo estava saindo da igreja. Quantos mais vão precisar morrer para que essa guerra acabe?

Eu li aquele tweet poucas horas depois que ela foi assassinada, quando meus olhos encontraram os do fantasma de Marielle Franco, sentada do outro lado da mesa, à minha frente, com seu sorriso radiante.

Embora o tweet tivesse sido altamente indicativo, a forma como o clamor imediato na mídia foi tão previsivelmente dividido entre as linhas partidárias também foi bastante reveladora.

De um lado, o luto e a solidariedade com a mulher de quem poucos haviam ouvido falar, apesar de sua incrível trajetória vencendo todas as adversidades de uma negra, mãe solteira da favela da Maré, mulher que fez pós-graduação em Ciências Sociais e Administração Pública, que se casou com outra mulher e se tornou uma legisladora da cidade do Rio de Janeiro. Marielle Franco foi a defensora dos direitos humanos que faltava em comunidades violentas como aquela em que foi criada, um dos muitos lugares do Rio de Janeiro onde há chuvas tropicais de balas. Uma crítica aberta da brutalidade policial e dos assassinatos extrajudiciais, seu tweet não foi a primeira manifestação em que ela confrontou a milícia, cujo controle tácito sobre áreas da cidade parece ter alcançado níveis sem precedentes – sendo que alguns de seus membros ousaram celebrar sua morte abertamente, até destruindo imagens da vereadora, enquanto outros permaneceram visivelmente silenciosos, recusando-se a denunciar o assassinato.

O silêncio deles se juntou a um coro crescente de “e então?” — naquela emboscada discursiva que tira a importância do argumento ou do fato de pessoas que também nunca tinham ouvido falar da vereadora. Exigiram que o fantasma de Marielle Franco imediatamente pegasse uma senha e se preparasse para ser esquecido na fila onde, segundo Monitor da Violência, medias altas de quase 75% das investigações de homicídio no Rio de Janeiro continuam em andamento ou sem solução. Involuntariamente defendendo a polícia antes de qualquer acusação, delataram-se pela forma em que não se preocuparam em verificar se – oficialmente – a polícia não havia estado em nenhum lugar próximo da cena do crime.

Ou tinha estado?

Com seu preconceito revelado de maneira embaraçosa, como se tivessem sido pegos no meio da rua com as calças abaixadas, aqueles que tão prontamente decidiram desprezar Marielle Franco foram rapidamente abastecidos com calúnias para cobrir suas partes íntimas por aqueles tão pouco criativos e corajosos ao usar as redes sociais. Eles rapidamente produziram as evidências, espalhadas com o clique de um botão para os milhões de ansiosos por nunca duvidar que a vereadora sempre havia sido uma “traficante”, uma “bandida”, uma “corrupta” – um discurso distorcido segundo o qual ela havia merecido o acontecido, matando-a, portanto, pela segunda vez. A difamação foi tão patética que teve um efeito oposto ao pretendido: os haters permaneceram na rua; seu preconceito tão mal coberto que chegava a ser pornográfico. Até o chefe de polícia manifestou grande respeito pela vereadora, que muitas vezes havia ajudado as famílias de policiais falecidos, caídos no imbróglio interminável de violência que invariavelmente tira a vida também dos policiais.

Quanto mais eles insistiam em espremer cada mentira desprezível por uma gota de verdade para impedir que o assassinato de Marielle Franco se tornasse o óbvio – um assassinato político – mais expunham suas partes íntimas, aqueles lugares sombrios onde escondem sua discreta feiura: o fato de que eles não apenas preferem viver em um mundo em que não há ninguém remotamente parecido com Marielle Franco, mas também preferem um mundo que apaga a história de pessoas como ela.

“Como se não pudéssemos enxergar isso!”, eu bradei, explicando para o meu amigo que o preconceito é sempre desnudado.

Percorrendo o caminho que circunda a ilha, nós nos aproximávamos do protuso toco que havia restado da vítima, João Gordo, que, ao contrário da vereadora, era um sobrevivente da tentativa de homicídio. Os dois crimes, porém, estavam intimamente ligados em minha mente, porque o assassinato de Marielle Franco não foi mais um homicídio comum, assim como o caso de João Gordo não foi um crime ambiental cometido para fazer lenha.

A essência da questão é que ambos foram cruelmente punidos por ousarem ser os filhos emergentes e muito resistentes da África.

É chamada de Árvore da Vida em seu lar ancestral das áridas savanas, onde é reverenciada pelo significado espiritual inerente a uma árvore que armazena água para que toda a vida supere as piores fases das estações. Até mesmo suas flores, seus frutos e sementes, e suas folhas são sustento. Alcançando 30 metros de altura e um diâmetro de 9 metros, o poderoso baobá pode viver milhares de anos, até mesmo no minúsculo asteroide de O Pequeno Príncipe de Saint Exupéry.

Por todas estas razões, presto meus respeitos à gorda prima mais velha de João Gordo no momento em que ponho os pés na ilha de Paquetá, para onde se mudaram recentemente alguns dos meus amigos mais próximos. Maria Gorda está assentada na Praia dos Tamoios há mais de cem anos e, seguindo a tradição, dou-lhe um beijo e um abraço caloroso, embora seja quase impossível envolvê-la, porque, como diz o provérbio moçambicano, “a sabedoria é como o tronco do baobá: uma pessoa sozinha não consegue abraçá-la.”

Repito a tradição sempre que vou a Paquetá, ilha que também foi vítima de preconceito. A história contemporânea do Rio de Janeiro deu as costas à Baía de Guanabara – uma das sete maravilhas naturais do mundo e de onde a cidade surgiu – para encarar o Oceano Atlântico Sul nas famosas praias de Copacabana e Ipanema. A baía é considerada irremediavelmente poluída e nem uma Copa do Mundo nem as Olimpíadas conseguiram limpá-la, apesar de todas as promessas. Embora Paquetá não se situe na parte pior da baía, e muitas pessoas nadem ali, confesso que não o faço, mas isso nunca me impediu de desfrutar de uma ilha primorosa situada no meio do esplendor. Saindo da barca, viro à direita – relaxando imediatamente de um jeito que só é possível em um lugar onde não há carros – e sigo o caminho ao longo da praia até chegar à grande dama. 

Talvez você tampouco se imagina abraçando uma árvore, mas ninguém consegue resistir a um baobá.

Esta foi provavelmente a razão de uma semente ter sido cultivada com amor pelo falecido bombeiro militar Messias Breschnik Ribeiro Lima, que conseguiu fazer brotar a grande árvore. Quando atingiu um metro, surgiu a ideia de plantá-la em Paquetá, para fazer companhia a Maria Gorda. Assim, João Gordo foi batizado em 21 de setembro de 2013, Dia da Árvore. A muda ganhou uma cerca e uma placa com os dizeres: “Minha família é da África. Também sou conhecido como imbondeiro, baobá, ou a árvore da vida, mas pode me chamar de João Gordo.”

A família da África é muito grande no Brasil. As estimativas históricas variam muito, mas diz-se que muito mais de quatro milhões de africanos sobreviveram à viagem ao longo dos três séculos de tráfico de escravos do Atlântico para o Brasil. Em comparação com os 338.000 enviados aos Estados Unidos no mesmo período – e pelo fato do Brasil ter sido o último das Américas a abolir a escravidão sem nenhum plano e sem nenhuma reparação até hoje – é fácil entender como a cultura africana é uma parte tão íntima do Brasil atual, apesar da situação difícil em que a família se encontra nos centros urbanos do país, onde foi abandonada a improvisar cidades paralelas com governos paralelos e religiões paralelas à fé católica que fundou o Brasil.

Uma dessas religiões também é filha da África. Chama-se Candomblé, religião que sobreviveu e se formou a partir de muitas religiões africanas que se encontraram no Brasil nas circunstâncias extenuantes da escravidão. E é uma fé em que a grande devoção a este Universo ainda ecoa no amor do baobá. O Candomblé, como a Umbanda e outras religiões de matriz africana – para não falar das tradições indígenas – é desprezado por muitas outras religiões de conversão, especialmente por certas denominações evangélicas ou pentecostais que tanto eclodiram pelo país nos últimos trinta anos e que, digamos, três podem ser encontradas em qualquer quarteirão de comunidades inteiras sem uma única mercearia. É inegável que tais igrejas preencheram um vazio de negligência social e institucional com seu pragmatismo e serviço comunitário; no entanto, virando fontes de lucro, evoluindo para a condição de impérios midiáticos e políticos em plataformas de moralidade e intolerância, tornaram-se tão ameaçadoras quanto suspeitas.  

Por isso não fiquei surpreso ao notar como chegamos ao fundo do poço quando li que armas, drogas e evangelismo haviam se unido para formar os “Soldados de Jesus”, a gangue armada que montou barreiras para expulsar a polícia e tomar o controle de bairros inteiros nos subúrbios empobrecidos, consolidando assim seu negócio de narcóticos. Alarmante foi o relato do que fizeram aos terreiros, tradicionais locais de culto da fé afro-brasileira. Eu não pude deixar de imaginar homens armados entrando em minha casa, me forçando sob a mira de uma arma a destruir meu altar hindu. Não sei se teria a mesma maturidade dos religiosos do terreiro para compreender que muitas vezes se perdem batalhas para ganhar uma guerra, ou que amar a própria vida é amar toda a Vida.

Eu talvez simplesmente diria aos criminosos para irem em frente e me transformarem em um fantasma.

Devia haver muitos fantasmas sussurrando no ouvido de outro amigo e nativo da ilha, Ricardo Saint Clair Matos, quando disse que a destruição de João Gordo tinha sido “um crime ambiental, mas o motivo me pareceu ser de intolerância religiosa”.

Ricardo foi um dos primeiros convocados na manhã em que João Gordo foi encontrado decepado. Nascido na ilha há sessenta anos, ele retornou na década de 1990 para comprar uma casa com jardim amplo o suficiente para plantar vinte e cinco árvores, mas não o suficiente para a Plantar Paquetá, sua iniciativa verde que já plantou mais de trezentas árvores na ilha desde que o grupo foi criado.

Voltando à cena do crime no dia seguinte, Ricardo estava acompanhado por quatro integrantes do grupo que tratou do toco. Eles fizeram um corte diagonal para que a água não se acumulasse no topo e colocaram um composto curativo sobre ele. Quando acabaram de colocar o fertilizante em seu solo, Alessandra Bruno viu um tronco boiando no mar. “Era João Gordo”, disse Ricardo. “A maré deve ter trazido ele de volta.”

“A maré!”, exclamei cinicamente. Nosso grupo de amigos, reunido em torno de uma mesa para o almoço, sabia exatamente o que eu queria dizer: pois só poderia ser a Grande, a Mãe, a Deusa do Mar. Em minha própria fé ela é chamada por muitos nomes, mas a maioria se refere à Invencível. Ela também tem muitos nomes em toda a diversidade da África, mas se tornou mundialmente conhecida como Iemanjá, e obviamente ela tinha outro plano para o filho João Gordo, porque o devolveu do oceano, junto com seu maior presente.

Ricardo continuou sua história sobre como retiraram o tronco da água e o colocaram na calçada para ser recolhido pelo Comlurb. Por precaução, ele quebrou cinco galhos para tentar replantá-los em casa. Ele recebeu mais de cem mensagens de condolências naquela semana. “As pessoas colocaram flores e até uma cruz junto ao toco de João Gordo. Eu disse a eles que ficassem calmos, que havia uma chance de que ele ainda pudesse renascer.”

Meses haviam se passado quando Ricardo recebeu o inesperado telefonema de um integrante do grupo, Edson dos Santos Almeida, que brincou, como se estivesse segurando um refém: “Você sabe que estou com o Joãozinho em casa, não é?” Edson explicou que havia levado o tronco de ‘Joãozinho’ para casa para tentar reanimá-lo. Ele o havia banhado em água doce, colocado em um vaso com fertilizante e depois envolvido em plástico, a fim de criar uma espécie de estufa para expelir o sal marinho. Dois meses depois apareceram os primeiros brotos, e então Edson procurou Ricardo para dizer que João Gordo estava são e salvo.

A ideia inicial era que o tronco fosse replantado próximo ao toco, que também havia sobrevivido, gerando quatro novos ramos de baobá. Junto com os cinco ramos que Ricardo havia conseguido fazer brotar com sucesso, ficou claro que Iemanjá tinha planos muito maiores para o filho.

E seus planos não pararam por aí.

Nossa Senhora da Conceição, no Morro da Conceição, Rio de Janeiro. Foto: Ricky Toledano

No Rio de Janeiro não é preciso praticar Candomblé para saber que as cores de Iemanjá são azul e branco; brasileiros de todas as esferas da vida vestem essas cores ao se dirigirem ao mar no dia 31 de dezembro para oferecer flores à Deusa em um ritual de renovação e esperança. O que muitos brasileiros podem não saber é que o culto africano à Deusa sobreviveu por trás do manto azul e branco de Nossa Senhora da Imaculada Conceição, e é por isso que Iemanjá é frequentemente celebrada em 8 de dezembro, dia da santa Mãe de Deus, cujo azul-e-branco também serve de bandeira a uma das escolas de samba mais tradicionais do Rio, que tem como padroeira Nossa Senhora da Conceição.

Como não se ganha nada ao acreditar em coincidências, contive as lágrimas de alegria quando Ricardo me disse que João Gordo seguiu então para o subúrbio de Oswaldo Cruz na sexta-feira, 20 de novembro, Dia da Consciência Negra, onde foi entregue a ninguém menos que a escola de samba Portela, que plantou no vizinho Parque de Madureira (também um projeto de reflorestamento de grande sucesso para combater o dilema da expansão urbana) a jovem árvore que o oceano devolveu. E mais: as centenas de bateristas e milhares de componentes vestidos de azul e branco da Portela vão cantar os louvores aos baobás em seu próximo desfile de Carnaval.

Odoyá!

Não há dúvida de que foi uma vitória diante do mal daqueles cuja história depende da eliminação de todas as outras histórias para prevalecer. Iemanjá não apenas devolveu o filho com o dom da vida, como o devolveu com multiplicidade. Mas também foi um dos raros exemplos de justiça neste mundo, pois, eu acredito, não importa o quanto os mortais se esforcem por justiça, somos incapazes de conseguir muito mais do que vingança. Infelizmente, nem mesmo esta última veio como consolo pelo assassinato de Marielle Franco.

Enquanto escrevo estas palavras mais de 1.000 dias se passaram desde o assassinato da vereadora, e ainda não sabemos quem ordenou sua execução, apesar da averiguação de uma investigação tão esculhambada que os jogadores tiveram que ser substituídos o tempo todo durante a partida antes que a prisão dos ex-policiais – membros da notória milícia “Escritório do Crime” — revelasse a identidade do motorista e do assassino no carro que seguiu Marielle Franco. Desde então tantos pontos foram conectados que é como se um conjunto de culpados tivesse sido revelado. É um retrato que torna difícil até mesmo para a mais teimosa das pessoas manter uma cara séria enquanto finge não notar a ligação com os níveis altos do governo, o que poderia explicar por que os poderes da justiça chegaram a uma interrupção tão brusca.

Algum dia saberemos a verdade? pergunto ao rosto sorridente do fantasma sentado à minha frente na mesa. Infelizmente ela está acompanhada por muitos outros fantasmas, incluindo o mais recente, Marcelo de Almeida da Silva, 38 anos, um gari, trabalhador com dez anos de casa na Comlurb, que deixou sua residência na Vila Cruzeiro durante um confronto entre a polícia e a gangue local. De acordo com sua família, a polícia que o levou ao hospital afirmou que ele teve uma “convulsão” – apesar do buraco de bala em suas costas. A família identificou o corpo sem a mochila, na qual sempre carregava uniforme, crachá da empresa, identidade e chaves do carro. “Atiraram porque é negro e mora em comunidade”, disse seu irmão enlutado. A família fez um protesto no Instituto Médico Legal e está implorando por justiça.

“Agora me diga: você acha que eles vão conseguir justiça?” meu amigo perguntou em nossa conversa sobre uma situação que não podemos controlar, enquanto a noite estendia as luzes da cidade sobre as águas.

Justiça, pensei, lembrando não só que nove dos treze baobás mais velhos da África morreram repentinamente após milhares de anos – muito  provavelmente vítimas da mudança climática que também tem seus negadores, que refutam evidências sem evidências – mas também como as grandes árvores foram poeticamente substituídas por um projeto de reflorestamento urbano em uma pequena ilha do outro lado do oceano. Então pensei nas Marielles que desde então brotaram por toda parte, transformando o que era normal em inaceitável. Refletindo sobre a sabedoria que, como o baobá, não pode ser abraçada por uma só pessoa, lembrei-me de outro filho da África, um outro provérbio: Se quer ir depressa, vá sozinho. Se quer ir longe, vá acompanhado. 

João Gordo renasce. Foto: Wladimir Alberto Martins

 

Agradecimentos

O brilhante artigo de Roberto Kaz CRESCEI E MULTIPLICAI-VOS: O baobá João Gordo renasce numa praça em Paquetá do exemplar 171 da Revista Piauí foi indispensável para este trabalho.

Ótimas informações sobre as baobás no site da Fundação Joaquim Nabuco.

Muito grato a Ricardo Saint Clair Matos pelas imagens do João Gordo, e por todo o carinho dedicado por ele e pela Plantar Paquetá, ao recuperar a árvore, assim como os esforços não medidos pela salvaguarda da ilha.

Mais uma vez, um agradecimento especial a Liane Sarmento Magalhães pela tradução e amizade.

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A native of Chicago, Ricky Toledano has lived in Rio de Janeiro, Brazil for over twenty years as a writer, translator and teacher. [a]multipicity is multi-lingual collection of reflections through the humanities.

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