by Ricky Toledano
[Veja a tradução para o português abaixo]
While collectors today might covet a vintage Exacta camera from Dresden, forty years ago eight-year-old Lennart Goebel dreaded the sight of it. Slung around his father’s neck, the camera signaled another tedious morning ahead—one where Lennart would be left to his own devices while his father spent four patient hours observing how morning light transformed the walls and steeple of the 12th-century Streichenkirche, a church nestled in the splendor of the Bavarian Alps near the Austrian border.
Only years later would Lennart come to appreciate both the beauty his father sought and the lessons embedded in those long vigils—with the particular irony that comes from realizing how much we absorb from our parents without knowing it. Both father and son became architects and photographers, yet Lennart brought something entirely his own to the world: a career as a professional jazz musician, which he would eventually take with him to a new life in Rio de Janeiro, Brazil.
It was on Paquetá Island, in the middle of Rio’s Guanabara Bay, that I first noticed Lennart. Few people wake as early as I do to catch the sunrise, but there he was, professional camera around his neck, pursuing the dawn light in his riding boots—a vestige, perhaps, of the hiking gear he once wore in the Alps. With his platinum hair catching the first rays of morning, he cut a striking figure, utterly different from anyone else you might encounter in Rio de Janeiro.
I also photograph the sunrises and sunsets from the privileged vantage point that is Paquetá, but I soon discovered that my hobby was nothing like Lennart’s disciplined pursuit of light. “Sunrise is better than sunset,” he explained one morning, his Canon Rebel T5i ready in his hands, “because the atmosphere is cleaner then. And winter is much better—the sun takes longer to rise when the equator is further away. Summer sunrise is push-button, like turning on a light in a room.”
His choice of camera seemed poignant somehow. Here was a man using a Canon “Rebel” who had himself rebelled against everything the Frankfurt School had taught him about photography. During his art studies, visual expression was always tethered to ideology, and he had embraced that documentary tradition when he moved to Berlin in 1988, just before the Wall came down. Armed with a Praktika camera he’d bought for 100 deutschmarks—praised for its excellent manual lens—he began documenting a world in transformation.
Those early years in Berlin shaped his artistic vision. Working with a friend who had a photo lab in East Germany, and alongside his girlfriend at the time, Lennart photographed architecture and people in a city redefining itself. His series was published in a book, Sweet Home Leipzig, which captured industrial decadence in stark black and white, revealing the destruction left by coal mining in clouds of brown dust. Documentary photography became his language for speaking about environmental and social decay.
But Brazil changed everything. The repression of the pandemic marked a turning point from those weighty subjects toward what he had once dismissed as the clichéd pursuit of beauty. It was on Paquetá that he discovered the fundamental difference between sunrise and sunset, and between Rio and the island itself. “There is no sunset in Rio,” he told me, correcting a common misconception. Contrary to what most people believe, Rio faces Antarctica, not Africa. “The sun sets behind the city,” he said, “Paquetá has the privilege of both sunrise and sunset on horizons over the water.”
This geographic revelation seemed to mirror his artistic one. In Paquetá, he finally stopped being ashamed of beauty, rebelling against the Frankfurt School’s insistence that art must be unaccommodating and disturbing. In embracing the morning light over Guanabara Bay, he had become more like his father, who once photographed Alpine flowers with patient reverence.
The jazz musician in him had found an unexpected soundtrack for these dawn vigils. When I asked about music’s role in his photography, he paused thoughtfully. “I’d never considered it before, but yes, there’s always music in my mind during these morning shoots. Curiously, it’s never jazz.” Instead, it might be classical music, but more often Brazilian melodies—from Cartola to Milton Nascimento, though primarily bossa nova. “Bossa nova suits sunrise much better than jazz,” he reflected, and in that moment, I understood something essential about both his art and his adopted home.
Unlike his father’s solitary expeditions, Lennart does not invite companions on his shoots, remembering too well the tedium of those childhood mornings in Bavaria. But he does encounter them: it was on one of these dawn walks that he met his wife, though she no longer joins him—the mosquitoes of Paquetá having proven too formidable an opponent for romance.
Amanhecer rebelde: A photografia de Lennart Goebel
Embora colecionadores hoje possam cobiçar uma câmera Exacta vintage de Dresden, quarenta anos atrás o pequeno Lennart Goebel, de oito anos, temia a visão dela. Pendurada no pescoço de seu pai, a câmera sinalizava mais uma manhã tediosa pela frente—uma onde Lennart seria deixado por conta própria enquanto seu pai passava quatro horas pacientes observando como a luz matinal transformava as paredes e o campanário da Streichenkirche do século XII, uma igreja aninhada no esplendor dos Alpes Bávaros perto da fronteira austríaca.
Apenas anos depois Lennart viria a apreciar tanto a beleza que seu pai buscava quanto as lições incorporadas naquelas longas vigílias—com a ironia particular que vem de perceber o quanto absorvemos de nossos pais sem saber. Tanto o pai quanto o filho se tornaram arquitetos e fotógrafos, mas Lennart trouxe algo inteiramente seu ao mundo: uma carreira como músico profissional de jazz, que eventualmente levaria consigo para uma nova vida no Rio de Janeiro, Brasil.
Foi na Ilha de Paquetá, no meio da Baía de Guanabara do Rio, que notei Lennart pela primeira vez. Poucas pessoas acordam tão cedo quanto eu para ver o nascer do sol, mas lá estava ele, câmera profissional no pescoço, perseguindo a luz da aurora em suas botas de montaria—um vestígio, talvez, do equipamento de caminhada que uma vez usou nos Alpes. Com seus cabelos platinados capturando os primeiros raios da manhã, ele cortava uma figura marcante, completamente diferente de qualquer pessoa que você poderia encontrar no Rio de Janeiro.
Eu também fotografo os nasceres e pores do sol do ponto de vista privilegiado que é Paquetá, mas logo descobri que meu hobby não se parecia em nada com a busca disciplinada de Lennart pela luz. “O nascer do sol é melhor que o pôr do sol”, explicou numa manhã, sua Canon Rebel T5i pronta em suas mãos, “porque a atmosfera está mais limpa então. E o inverno é muito melhor—o sol demora mais para nascer quando o equador está mais distante. O nascer do sol no verão é automático, como acender uma luz num quarto.”
Sua escolha de câmera parecia tocante de alguma forma. Aqui estava um homem usando uma Canon “Rebel” que havia se rebelado contra tudo que a Escola de Frankfurt lhe havia ensinado sobre fotografia. Durante seus estudos de arte, a expressão visual estava sempre atrelada à ideologia, e ele havia abraçado essa tradição documentária quando se mudou para Berlim em 1988, pouco antes da queda do Muro. Armado com uma câmera Praktika que havia comprado por 100 marcos alemães—reconhecida por sua excelente lente manual—ele começou a documentar um mundo em transformação.
Aqueles primeiros anos em Berlim moldaram sua visão artística. Trabalhando com um amigo que tinha um laboratório fotográfico na Alemanha Oriental, e ao lado de sua namorada da época, Lennart fotografou arquitetura e pessoas numa cidade se redefinindo. Sua série foi publicada num livro, Sweet Home Leipzig, que capturou a decadência industrial em preto e branco marcante, revelando a destruição deixada pela mineração de carvão em nuvens de poeira marrom. A fotografia documentária tornou-se sua linguagem para falar sobre decadência ambiental e social.
Mas o Brasil mudou tudo. A repressão da pandemia, particularmente, marcou um ponto de virada daqueles assuntos pesados em direção ao que ele havia uma vez descartado como a busca clichê pela beleza. Foi em Paquetá que descobriu a diferença fundamental entre nascer e pôr do sol, e entre o Rio e a própria ilha. “Não há pôr do sol no Rio”, me disse, corrigindo um equívoco comum. Contrário ao que a maioria das pessoas acredita, o Rio fica de frente para a Antártica, não para a África. “O sol se põe atrás da cidade”, disse, “Paquetá tem o privilégio tanto do nascer quanto do pôr do sol em horizontes sobre a água.”
Esta revelação geográfica pareceu espelhar sua revelação artística. Em Paquetá, ele finalmente parou de ter vergonha da beleza, se rebelando contra a insistência da Escola de Frankfurt de que a arte deve ser inflexível e perturbadora. Ao abraçar a luz matinal sobre a Baía de Guanabara, ele havia se tornado mais como seu pai, que uma vez fotografou flores alpinas com reverência paciente.
O músico de jazz nele havia encontrado uma trilha sonora inesperada para essas vigílias da aurora. Quando perguntei sobre o papel da música em sua fotografia, ele pausou pensativo. “Nunca havia considerado isso antes, mas sim, sempre há música em minha mente durante essas sessões matinais. Curiosamente, nunca é jazz.” Em vez disso, pode ser música clássica, mas mais frequentemente melodias brasileiras—de Cartola a Milton Nascimento, embora principalmente bossa nova. “Bossa nova combina muito melhor com o nascer do sol do que jazz”, refletiu, e naquele momento, entendi algo essencial tanto sobre sua arte quanto sobre seu lar adotivo.
Diferentemente das expedições solitárias de seu pai, Lennart não convida companheiros para suas sessões, lembrando-se muito bem do tédio daquelas manhãs da infância na Bavária. Mas ele os encontra: foi numa dessas caminhadas da aurora que conheceu sua esposa, embora ela não o acompanhe mais—os mosquitos de Paquetá tendo se provado um oponente muito formidável para o romance.

Lennart Goebel is an architect, jazz musician and photographer. Originally from Bavaria, he lives on Paquetá Island, Rio de Janeiro, Brazil.








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