A Lógica da Fé

por Ricky Toledano

traduzido por Liane Sarmento

Aninhado nas exuberantes colinas da Reserva Nacional de Tigres Periyar, em Kerala, o santuário de Sabarimala é considerado a morada do Senhor Ayyappan, uma das divindades mais veneradas do sul da Índia, cuja peregrinação anual atrai milhões de pessoas, tornando-a uma das maiores peregrinações deste tipo no mundo.

Muitos homens se preparam com meses de antecedência para a jornada, aderindo a uma vida simples de ioga, abstendo-se de sexo e certos vícios de comida, bebida, linguagem e comportamento que distraem e são incompatíveis com a busca espiritual. Dispensando seus sapatos e vestindo o icônico traje azul ou preto, eles saem em grupos 41 dias antes da chegada prevista ao santuário, respeitando as práticas devocionais diárias de banhos e orações, enquanto visitam outros templos no sul da Índia em seu caminho fraternal, serpenteando pelas colinas do sul para chegar ao santuário, onde esperam ser abençoados com a contemplação das luzes do Senhor.

No entanto, foi em outro santuário que vi pela primeira vez esses homens vestidos de preto e azul. As próprias cores me pareciam curiosas, já que contrastavam com as habituais cores de açafrão de um sadhu. Primeiro vi alguns poucos, depois mais e mais. Uns subiam e outros desciam os muitos degraus que levavam ao santuário no topo da colina do Senhor Hanuman, em Hampi, onde eu fazia uma espécie de peregrinação individual pela terceira vez. Depois encontrei esses homens de vestes peculiares em outros templos. Devido ao grande número deles, suas roupas incomuns para renunciantes e certas características sutis no comportamento e maneira de se pentear me levaram a suspeitar que não fossem necessariamente sadhus, embora claramente estivessem em peregrinação.

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sadhu por Ricky Toledano

Ao indagar aos meus irmãos do Norte da Índia sobre a ordem à qual poderiam pertencer, descobri que eles já tinham tido a mesma curiosidade e questionaram nosso motorista, que havia respondido da melhor maneira possível na língua híndi que não era dele.

“Eu não entendi muito bem, mas eles estão em peregrinação a Kerala. Eles têm uma disciplina severa. Chegando lá, eles verão as luzes de Deus. Algo assim”, respondeu meu irmão.

Minha curiosidade levou-me a pesquisar mais sobre a peregrinação. A resposta foi facilmente encontrada com um pouco de bisbilhotice básica no Google, mas nem tão fácil assim foi decifrar a imediata e alarmante controvérsia envolvendo o templo Sabarimala, que incluía acusações de imoralidade, irresponsabilidade e ignorância que saltavam da tela.

Alguns litígios eram quase cômicos: fiquei imaginando as batalhas jurídicas relativas ao protocolo religioso do templo, incluindo suas medidas de segurança e fila VIP, bem como cotas para fornecedores de bananas. Outras escaramuças legais faziam parte do acirrado confronto entre as tradições dos valores antigos e modernos, em que a proibição de mulheres no santuário era diretamente desafiada. No geral, a lista me lembrava algo que poderia ser incluído por Amartya Sen em seu Argumentative Indian, e tais controvérsias e melodramas não eram nem surpreendentes, nem desinteressantes para mim. O que chamou minha atenção foram outros debates nada cômicos: havia vários relatos de fraude religiosa nos artigos dos “Racionalistas”, que aproveitavam a oportunidade para condenar a ignorância da religião sobre a revelação de que o makarajyothi, as luzes de Deus testemunhadas ao final da peregrinação, era de fato manipulado pelas autoridades. Considerando que se trata de uma peregrinação de profunda importância econômica para o estado de Kerala, onde centenas de mortes resultantes de debandadas têm acontecido repetidamente ao longo dos anos como parte desse ritual, a indignação do Racionalista talvez tivesse fundamento.

E se você é como qualquer um dos meus muitos amigos racionais, eu provavelmente já lhe forneci informações suficientes para reforçar sua crença de que tal peregrinação é mais um ato inútil de loucura religiosa. Mas eu não seria tão rápido em sacar a arma afiada da lógica. Você pode descobrir que tem, nas suas mãos, uma faca muito mais cega do que imaginava, especialmente se acredita que é inútil adotar uma disciplina para refrear o desejo na busca do autoconhecimento. Além disso, se inútil significa infrutífero, e você acredita ser uma ação que não produz nenhum resultado, é melhor rever seus conceitos, porque não há nada no mundo conhecido da razão e da lógica indicando que uma ação tem a possibilidade de produzir resultado nenhum.  Uma ação sempre produz um resultado, e todos os efeitos têm causas, ainda que indesejadas, não aceitas ou não conhecidas. Essa é a lei, e isso significa que mesmo uma oração produz um resultado, ainda que seja apenas uma calma momentânea para uma mente perturbada – mas sob nenhuma circunstância você deve acreditar que a paz da mente é o resultado máximo da oração. Não nos cabe escolher os resultados de nossas ações; eles são entregues a nós, de acordo com uma Ordem que não controlamos.

Pense no meu retorno a Hampi: uma colaboração invisível ocorreu para satisfazer meu desejo de repetir a viagem, e foi precisamente essa Ordem que não bloqueou meu caminho com catástrofes monumentais ou diminutas. No entanto, pode ser que tenha havido outras, desconhecidas para mim,  que tenham ocorrido para me levar àquela colina novamente, para não falar dos infinitos sucessos do clima e das pessoas por trás de aviões, trens, automóveis, governos, e as histórias que se cruzam de muitas pessoas e de seus pais antes deles, interconectando-se em uma teia inimaginável – uma Ordem – da qual todos e cada um de nós indivisivelmente faz parte.  É por isso que, mesmo quando escolhemos cuidadosamente nossas ações para satisfazer nossos desejos, nunca somos os únicos e exclusivos autores de nossos sucessos ou fracassos, e muito menos decidimos sobre os resultados de nossas ações. É no reconhecimento desse Universo que vem em nosso auxílio que se baseiam a humildade e a maturidade. É por isso que uma ação como a oração pode de fato ser um modo de acalmar a mente ao lidar com o medo, mas também pode ser parte de uma prática de se reconhecer a si mesmo como parte dessa Ordem, o que significa falar a Si mesmo honestamente, cultivando uma certa visão de indivisibilidade com tudo o que existe – e essa visão também terá resultados próprios.

Mas uma oração e uma peregrinação são dois investimentos de esforço muito diferentes. Subindo os degraus estreitos e íngremes até os santuários, não pude deixar de notar os pés ásperos dos peregrinos enquanto caminhavam, enquanto tentava imaginar como estariam meus pés depois de andar descalço pelo sul da Índia por um mês, contendo meus desejos mundanos, rejeitando muito mais que meus sapatos para cumprir minha palavra dada a mim mesmo. Imaginando a dificuldade. Imaginando o que poderia ganhar – e perder.

Como eu os invejei!

Em parte porque possuo alguma experiência em renunciar conscientemente a certos hábitos a fim de conquistar outros – de acordo com a antiga tradição do ioga – tenho uma ideia dos possíveis resultados obtidos por alguém que se compromete a disciplinar a mente e o corpo. Fiquei muito orgulhoso daqueles homens, mas confesso que invejava mais a euforia de poder suspender todos os meus deveres momentaneamente e entregar-me ao Universo, praticando a aceitação de tudo o que surgisse em meu caminho, e ao mesmo tempo insistindo em nada mais do que minha promessa descalça para alcançar o santuário.

É por isso que contemplar o makarajyothi, as luzes “miraculosas” que surgem do topo da colina exatamente no momento em que as estrelas de Sagitário começam sua ascensão para o norte, seria interpretado apenas pelo simbolismo encontrado em qualquer ritual. O fato de que as luzes eram de fato feitas pelo homem – desprovidas de milagres no que muitos chamaram de “fraude” – não faria diferença: eu deveria pensar que o resultado de meu esforço seria medido pela devoção à minha missão de maturidade na vida, ao me dedicar por um mês a aceitar que estou limitado a escolher minhas ações, mas não seus resultados, que são entregues por uma Ordem que não controlo, da qual sou indivisivelmente uma parte.

Mas essa não é necessariamente a visão de cada um dos milhões de pessoas que participam de atos de fé todos os dias, que podem até fazê-lo supersticiosamente, por medo daquela Ordem incontrolável. E certamente não é a maneira como muitos com lógica binária veem tais atos de devoção, ridicularizando-os, inconscientes da razão por trás do ritual, independentemente da visão por trás deles ser de fé ou de superstição. Ou pior: há aqueles que categoricamente consideram todas as religiões como uma única manifestação de ignorância.

Não é nada disso. Há uma profunda distinção entre uma religião cuja verdade depende da aceitação de uma única história e uma religião que não requer a aceitação de qualquer história para buscar a verdade que é a Lei e a Ordem deste Universo.

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a colina do Senhor Hanuman em Hampi por Ricky Toledano

Foi sentado no templo no topo da colina após o puja de Hanuman, olhando através daquele vale verde com um rio cheio de pedras, em um pôr do sol dourado, que eu contemplei essa diferença, e o quão difícil é disciplinar a mente para cultivar a visão que é a fé. Voltando à aldeia onde nos hospedamos ao anoitecer, lembrei-me mais uma vez desse desafio e das direções que a crença pode tomar quando um amigo evitou caminhar perto de uma figueira-dos-pagodes – uma peepal tree – em nossa pousada, com extrema precaução. Supersticioso, ele temia muito a árvore dos fantasmas à noite, e eu já o tinha visto prender um penduricalho de limão e sete pimentas verdes na porta de nossos aposentos – uma oferenda a alakshmi, a infelicidade, de modo que seu azedume e amargura ficassem do lado de fora e não entrassem. Os rapazes zombaram de sua superstição sem perdão.

Uma vez que as brincadeiras provocativas entre os rapazes estavam chegando ao seu limite, beirando a irritação e a defensiva, a questão foi colocada diretamente para que eu respondesse: “Qual a diferença entre superstição e fé?”

Fui envolvido pelo silêncio, em uma pausa responsável para considerar minhas palavras cuidadosamente antes de falar, como se sentisse uma pedrinha na comida com a minha língua. Havia duas razões para tal cautela. Em primeiro lugar, eu havia sido indagado por alguém que regularmente praticava atos de superstição para conseguir as coisas desejadas e evitar as indesejadas, e seria antiético atrapalhar sua linha de raciocínio, porque, pensei, isso pode ter algum mérito no treinamento da mente para aguçar a atenção – algo que dificilmente seria considerado insignificante hoje em dia. Em segundo lugar, eu não estava realmente preparado para responder a essa pergunta, apesar de meu instinto me dizer que atos de superstição não eram expressões de fé, sem importar o quão diligentemente fossem praticados, nem tampouco o quanto fossem ritualizados.

Minha silenciosa, embora momentânea, contemplação foi seguida por uma hesitação em puxar o gatilho, demonstrando minha própria insegurança. Afinal, olhando de fora para dentro, qual seria a real diferença entre eu oferecer fogo, água e comida todos os dias para os deuses e evitar ovos às terças-feiras e ele evitar as peepal trees e pendurar limões e pimentas na porta?

“Acho que talvez a diferença esteja no fato de que as superstições são praticadas por medo. Medo de não conseguir o que se quer, ou medo de não conseguir evitar algo temido. Fé não é isso; é uma entrega”, eu finalmente argumentei, mas de forma pouco convincente, porque ocorreu-me que ambas as práticas podem ser consideradas disciplinas que acalmam a mente quando existe medo.

Talvez por minha relutância e possível insegurança de minha própria resposta, ela foi energicamente rejeitada: “Não, não, não! Eu não concordo. Minha fé não é superstição!”

Dobrei a aposta: “Não. Você faz essas coisas por medo. Não vem de uma apreciação. Você está pedindo coisas. Fé é oferecimento; é amor; não pede nada. Coloca você sem medo a serviço do Universo do qual você faz parte.”

A afirmação foi servida tão secamente quanto foi engolida, e não foi correspondida, exceto por algumas faíscas que sempre resultam da fricção de dois objetos tão sólidos e pesados como nossos egos. Era um aviso de que já havíamos começado a competir; e eu interrompi potenciais conflitos, rapidamente mudando de assunto para coisas sem grande importância, lembrando do dia precioso que havíamos passado juntos.

Mas agora eu estava em dúvida. Eu sentia, mas na verdade não sabia, o que era fé. Ela já havia se tornado uma parte tão grande de mim por tanto tempo que não era mais questionada do que as pernas que me levam aonde quero ir.

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Gloria Arieira

Decidi consultar minha professora do outro lado do globo sobre a minha dúvida. Professora de Advaita Vedanta e de Sânscrito, aluna de confiança do falecido Swami Dayananda Saraswati, Gloria Arieira respondeu quase que imediatamente após minha explicação do contexto: “Fé é shraddha, é acreditar e dedicar-se à Tradição dos Vedas.”

Shraddha! Claro! Eu tinha esquecido da aula de Vedanta.

“Mas é mais do que isso”, continuou ela, “shraddha pode ser traduzido como confiança. A fé não é meramente acreditar em algo que não faz sentido e é ilógico. Quando se confia, mesmo quando ainda não existe uma compreensão completa, já se confirmou suficientemente que um argumento é válido. Depois disso, um voto de confiança é dado para tentar compreender pela confiança e devoção à Ordem que é este Universo.”

Então, eu pensei, é um ato de superstição uma desconfiança da Ordem que governa este Universo?

“A superstição é apenas uma resposta ao medo. Seu ato não tem lógica. Não é um ritual, que é uma ação – seja física, oral ou mental – deliberadamente estabelecendo uma relação com a realidade maior que a do indivíduo. Há rituais praticados por tradições religiosas, como cantar, orar e meditar. E como ações, eles produzirão resultados: o primeiro é uma conexão com Tudo o que existe – Ishvara; o segundo é a paz de espírito. Mas pode ser que um ritual seja composto de uma série de práticas para acalmar a ansiedade e o medo de um indivíduo. Nesse caso, o ritual pode não fazer sentido ou ser executado com lógica, mas acalma a pessoa, o que tem sua própria validade”, explicou ela, com a exatidão que com a exatidão esperada dela, numa resposta que teria sido digerida muito mais suavemente do que a resposta grossa que ofereci quando fui diretamente indagado.

O silêncio da noite era o do rio fluindo ali perto e fico feliz em dizer que apenas um fantasma conseguiu passar pelo limão e as pimentas penduradas na entrada.

Nós estávamos na terra de Kishkinda, onde o grande épico Rāmāyana  tem uma reviravolta surpreendente quando o Senhor Rāma encontra os reis dos ursos e dos macacos, que vêm ajudar em sua busca para encontrar a sua amada Sītā, capturada na Ilha de Lanka pelo Rei Demônio, Rāvana. E foi o fantasma da dúvida que entrou no quarto – os fantasmas são sempre dúvidas – lembrando outra questão que me foi colocada: “É verdade? Nós realmente estávamos na caverna do urso, o Grande Sugrīva? O Rāmāyana aconteceu mesmo?

“Quem sabe?”, respondi distraidamente. Eu estava muito admirado com a beleza e o significado da terra ao meu redor. Mas, finalmente deitando a cabeça para descansar, esperando o sono, percebi o quão perigoso é o fantasma da dúvida quando ele adentrou o ambiente e a minha mente. Decidi que na manhã eu explicaria a eles que não importava se a história era verdadeira ou não. Muitos amigos ainda me enviam artigos e vídeos dos cientistas “provando” que houve de fato uma antiga ponte terrestre entre o Subcontinente e o Sri Lanka e que ela foi construída – artificialmente – como se inferisse alguma veracidade da história em que os animais se reuniram para ajudar a construir a ponte, para que seu exército pudesse conduzir o Senhor Rāma para derrotar o Mal e salvar Sita. Percebo quão fascinante a possibilidade de uma história verdadeira poderia ser, assim como quão irresistivelmente atraente seria para cientistas de todos os tipos analisar os fenômenos literários – seja Moisés dividindo as águas do Mar Vermelho ou qualquer um dos muitos momentos mágicos contidos nos puranas – mas não é a historicidade de tais narrativas que lhes dá valor. O poder transformador da literatura tem outro propósito, tão imperativo quanto o da ciência na busca pelo conhecimento, e que transcende a dualidade da ficção e da não-ficção: é o cultivo da sabedoria e tudo o que acontece quando se aprende a disciplinar a mente para lidar não apenas com os outros, mas consigo mesmo na vida. Sem esse autoconhecimento, mesmo os mais brilhantes e talentosos, como o rei-demônio Rāvana, tornam-se exemplos de quão insensatos e escravizados são aqueles que não conseguem abandonar seu ego. É por isso que eu digo que é impossível conhecer a história que é o Rāmāyana sem descobrir como ser um herói e como ser livre em sua própria vida.

O perigo desse fantasma da dúvida reside na preguiça intelectual de interpretar a verdade na trama de uma narrativa única e irrefutável que não pode acomodar outra, em vez de fazer uma análise do que se considera a verdade. A primeira postura é o oposto da fé, o que os racionalistas podem chamar de fé cega, sua intolerância a qualquer outra narrativa forma a raiz da ignorância, da qual brotam a manipulação, a subjugação e a violência. A segunda é a fé na busca da verdade e do significado da vida de alguém que não depende de nenhuma história, embora muitas histórias possam ser ouvidas para ajudar alguém na jornada para a realização.

Ironicamente, mesmo os mais inteligentes muitas vezes não conseguem discernir essa diferença de visão com relação à fé, rotulando toda religião como ignorância e atacando o que não é entendido, como a peregrinação.

E, ao ver outros daqueles homens vestidos de preto e azul no dia seguinte, eu os contemplei com grande admiração, à luz da explicação de Gloria Arieira sobre o que significa peregrinação:

“Ela é composta pelo peregrino (o devoto que tem um desejo), o lugar de peregrinação (que tem importância de acordo com a tradição religiosa), e a jornada – o caminho.

É feita por uma pessoa que quer alguma coisa, geralmente uma experiência ao longo do caminho, mas a própria peregrinação é frequentemente oferecida como sacrifício para receber outra coisa.

Qualquer sacrifício, incluindo a peregrinação, envolve o ato individual de abandonar algo de grande valor. É a partir deste momento que o indivíduo se sente merecedor de algo ainda maior. Há a sensação de que, ao fazê-lo, a pessoa se qualifica para buscar algo que traga maior satisfação na vida. Quer exista um objetivo específico ou um outro que ainda não está claro para o indivíduo, a expectativa é receber algo maior. Além do sacrifício envolvido com a peregrinação, há também o esforço aplicado na busca de algo e fazendo o encontro acontecer.  O indivíduo torna-se merecedor e faz um esforço final para alcançá-lo através da peregrinação. O caminho é significativo, já que o indivíduo se afasta do cotidiano – mas não para sair em uma mera excursão de entretenimento. Uma pessoa embarca em uma jornada por algo maior, buscando uma experiência de realização. Durante a peregrinação, há um silêncio e uma atitude de devoção, que ajuda a pessoa a ter uma experiência que transcende o mundano. Chegar ao santuário de devoção leva o indivíduo a um encontro que é a experiência de ser abençoado pela realização.”

Agora, o que seria essa coisa maior? Essa realização? Esse desejo tão ardente que faz as mãos abandonarem as coisas mais queridas para alcançar algo melhor?

Como aluno de Gloria Arieira, sei que isso não é uma coisa, porque sei que não há objeto ou quantidade de coisas neste mundo que possam ser adquiridos a ponto de satisfazer totalmente alguém e nenhum desejo restar. No entanto, isso é apenas a compreensão intelectual do que é chamado de objetivo final de uma vida humana, e isso não é suficiente. Diz-se que se pode levar esta e muitas outras vidas para alcançar aquele objetivo final, tão indescritível, porque está tão próximo que não pode ser visto. Tão próximo que nenhum dos cinco sentidos consegue detectá-lo. De fato, está tão próximo que nunca faltou na realidade.

Felicidade é a realização que já faz parte da natureza de alguém e tudo o que se procura. É ilimitado e é o que o Senhor Krishna, no capítulo nove do Bhagavadgītā, chama de “o maior de todos os segredos … o rei do conhecimento”. Mas devido à nossa própria ignorância, que ofusca constantemente o nosso caminho para o autoconhecimento, muitas tradições religiosas nos deram ferramentas para praticar o não necessitar de nada para sermos felizes. Elas consistem de ações – rituais simples e sofisticados – que aparentemente não produzem nada, nenhum resultado.

Mas isso não significa que não haja nenhum resultado.

Isso talvez signifique que você terá que olhar na direção oposta, sentar-se e abrir mão de tudo por um momento, e desligar os cinco sentidos para descobrir que consegue ver até mesmo a mente no escuro. E se isso falhar, há também as histórias para nos ajudarem a encontrar a direção correta. Como Gloria Arieira explica através do grande épico e provavelmente a história mais antiga do mundo:

“Ao contrário do Senhor Krishna, o grande sábio que instrui Arjuna sobre o autoconhecimento, o Senhor Rāma, por outro lado, não está ciente de sua natureza. Rāma representa o Atman (a alma) e Sita representa a felicidade – Ananda. Os dois estão sempre juntos, inseparáveis. No entanto, devido à ignorância, desejos e ilusão – tudo o que é Rāvana– Sita é raptada. Rāma deve lutar contra a desilusão para trazer Sita de volta e viver mais uma vez em sua morada legítima de Ayodhya, o lugar sem yuddha, luta, conflito, oposição, divisão e dualidade.

Para destruir Rāvana, Rāma corta as muitas cabeças do rei-demônio, das quais uma nova sempre brota da mente insaciável dele, até que Rāma alveja Rāvana diretamente no coração, atingindo seu falso-eu, o ego, destruindo sua ignorância.”

O falso-eu: acho que prefiro largá-lo e procurar o verdadeiro em uma disciplina constante de ações para controlar minha cabeça dispersiva como a de Rāvana, em vez de ter minha ignorância dolorosamente atingida como uma flecha no coração. De qualquer forma, em algum momento da vida, somente o autoconhecimento fornecerá a satisfação que dissipa a ignorância. E essa é a razão pela qual você não deve ridicularizar a fé de ninguém, especialmente se aquela fé não exige nada de você. Assista a seus rituais. Pode ser que um dia você também descubra a necessidade de caminhar até um lugar onde sempre esteve, procurando por algo que você nunca perdeu.

OM TAT SAT

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A native of Chicago, Ricky Toledano has lived in Rio de Janeiro, Brazil for over twenty years as a writer, translator and teacher. [a]multipicity is multi-lingual collection of reflections through the humanities.

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