Parada no trânsito

por Lygia Lima

“Doutor, eu não tenho essa doença não! Vai buscar outra coisa pra eu ter porque…eu sou louca, mas minha loucura é outra, e não criei isso não!”

Entendi o sorriso do médico, por natureza, uma pessoa científica. Uma pessoa que estudou muita coisa, mas não necessariamente um estudo que contempla donde vem a causa de nossas doenças. Só que o doutor, em questão, foi um aluno meu, então não foi estranho para ele ouvir, novamente, a voz ativa vinda de uma pessoa que criara a própria doença. O normal, no meio dele, é a voz passiva, “foi desenvolvida através”, “foi criado” no intuito de acomodar o como, mas não o porquê da doença.  Mesmo assim, e independentemente da lógica de quem criou a minha enfermidade, redobrei a razão pela qual ele não podia me condenar a ter uma doença tão grave. Eu lhe falei francamente: “Sou uma professora de Yoga. Nunca vou ter o dinheiro para pagar essa medicação para o resto da vida.”

Solidário com a minha consternação, confessou que ele não estava totalmente certo do que eu tinha.

Pior que não era o único dos meus problemas de saúde – e de entendimento – sobre meus obstáculos na época.

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O encontro com a salvação da minha vida aconteceu logo depois de um problema ainda mais grave, durante a minha estadia a trabalho na paradisíaca Ilha de Palma de Mallorca. Estava para retornar ao Brasil, quando fui parar na emergência do hospital. Depois de três dias internada, a médica me deu alta e me deixou voar, o que realmente foi uma surpresa para mim, considerando o tamanho que estava minha perna inchada, como um elefante.

Quase parti deste mundo duas vezes: uma de trombose na minha perna direita, caso o trombo tivesse chegado ao coração, pulmão ou cérebro; e outra, durante as internações para descobrirem a razão da trombose:

meu corpo perdeu tanta proteína, que uma gripe qualquer ou infecção hospitalar poderia ter me passado desta dimensão a outra.

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Ao longo de 30 anos no trânsito – administrando aulas entre os Estados Unidos, México e Brasil – Mallorca foi apenas mais uma das várias jornadas da vida, quando dobrei à esquerda, depois à direita e entrei na contramão para chegar à Espanha em 2008. Foi uma época repleta de mais idas e vindas…tentativas de ficar de vez no Brasil. Parece que passei a vida procurando o local certo.

Apesar de ter sido na Espanha o lugar onde me sentia em casa, o Universo tinha outro plano para mim.

Esse plano incluía, assim que eu chegasse ao Brasil, mais quatro internações ao longo de três meses, feita uma náufraga. Embora tivesse uma equipe dos melhores médicos de São Paulo, um deles sendo o meu aluno, não descobriram imediatamente o que eu tinha. A perda da qualidade de movimento na minha prática, foi só uma das muitas realidades duras com as quais tive que lidar. Minhas pernas eram dois troncos de árvores, já que ambas incharam, por causa da falta de proteína no corpo. Eu parecia uma anoréxica e não tinha mais força nos braços; caía das posturas. Olhava-me no espelho e não me reconhecia: Da cintura pra baixo, eu era uma pessoa e, da cintura pra cima, eu era outra. Aquela pessoa dividida entre países manifestou-se em carne trêmula.

Foi um período de escuridão para mim, principalmente, porque eu continuava com meu sintoma, de tão longa data, que eu insistia em ignorar: a diarreia crônica.

Achava que simplesmente fazia parte da minha vida louca de tantas mudanças, por vários países, carregando comigo dois gatos e uma cachorra Akita de 40 kg.

Não havia outra escolha, a não ser a de continuar trabalhando entre uma internação e outra, já que eu não tinha um suporte financeiro para bancar um tempo de repouso e descanso, permitindo assim meu corpo recuperar-se mais rápido.

Enfim, achava a corrida maluca normal.

Minha saúde não achou nada daquilo normal. Apesar dos ótimos cuidados médicos que eu tinha, minha situação só piorava. Foi um momento desesperador em que eu tive que colocar o Yoga em prática de outra maneira, de um modo que eu nunca tinha conhecido antes, não com aquela intensidade. Tive que descobrir não só que enfermidade tinha, mas como eu havia criado a minha própria doença.

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Talvez esta minha história com Yoga não seja muito diferente das de muitas pessoas no mundo.

Aos 17 anos, numa fase hippie, quis mudar meus hábitos alimentares. Virei vegetariana simplesmente tirando a proteína animal que comia todos os dias, no almoço e no jantar. Eu não tinha nenhum entendimento sobre nutrição, durante uma época que tampouco tinha tanta informação. Sou de uma geração em que muitos fizeram essa mudança incautamente. Foi um erro básico, agravado por onze anos de uma vida nova-iorquina, dando muitas aulas, alimentada por bagels e muffins.  Foi quando se instalou, silenciosamente uma anemia crônica, que foi piorando devido aos meus péssimos hábitos alimentares, além do frio, e uma agenda louca de trabalho.

Essas sementes de Karma do passado ainda não foram reveladas nem para o meu médico, nem para mim.

Mas comecei uma busca naquele momento, já parada num leito de hospital, por tudo que eu aprendera até então.

Depois de tantos anos de estudo de Yoga e das escrituras de Vedanta – em que escutamos nossos mestres dizerem que não somos nosso corpo, não somos nossos pensamentos e não somos nossas emoções – como fazer naquela situação para praticar essa não identificação tão profunda? Como praticar a busca pelo Eu Verdadeiro?

Foi aí que senti na pele que, o que temos que incorporar e viver, não é apenas um entendimento intelectual de que Yoga é uma filosofia prática de vida, uma ciência e arte ancestral que unifica e integra nosso ser, corpo-mente-espírito; Yoga é mais! É a Tradição que nos ajuda no processo de autoconhecimento e que, consequentemente, influi na qualidade de nossas vidas e relacionamentos, fazendo com que estejamos mais conscientes, proativos e conectados com o Todo. Desenvolvemos nosso máximo potencial nesse processo, e isso inclui estarmos mais intuitivos e perceptivos. Naturalmente, começamos a questionar nossos hábitos e a observar os padrões.

Contudo, quando ignoramos os sinais vermelhos e, porque não dizer, também os verdes; quando começamos a ficar sem alinhamento e sem congruência, inevitavelmente, o corpo fala, ou melhor, ele grita. Algum problema de saúde seguramente aparecerá para nos lembrar da nossa mortalidade e impermanência.

Eu tinha avançado alguns sinais vermelhos, e o Universo chegou com umas infrações.

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Quando estamos no caminho do Yoga, não somente como alunos buscadores, mas também como professores, que cuidam de outras pessoas e as guiam, temos que representar nossas palavras de ensinamento. “We must walk the talk”, ou seja, nossos passos devem seguir nossas palavras.

E isso é muito, muito fácil dizer!

Agora…vai fazer, especialmente, quando encurralada por obstáculos em um leito hospitalar!

Há momentos em que precisamos de ajuda. E é engraçado como o amparo de que necessitamos, na verdade, sempre nos acompanha. Nunca falta! Ele está ao nosso lado o tempo todo e não percebemos.

Para mim, nada mais propício do que conversar diretamente com o Senhor dos Obstáculos.

 Ganesha é o Deus mais adorado e festejado na Tradição Hindu. É conhecido como o Deus do conhecimento e da ação e seus resultados, como o Senhor das soluções lógicas. É conhecido por não ser apenas o removedor dos obstáculos, mas por colocá-los quando necessário, quando precisamos de algumas lições.

E Ele é adorado por mim!

Foi naquele momento mais escuro, então, que minha prática se tornou conversar com Ganesha, pedindo-lhe as respostas e as razões pelas quais eu estava passando por aquele desafio. Limitei as visitas ao período da tarde e não quis que ninguém dormisse comigo nas internações. Não queria falar muito a respeito do que eu estava passando! Seria meu momento de meditação e silêncio.

Com atitude de aceitação, comecei a conversar com meu corpo nas minhas meditações e pedi que ele manifestasse a razão daquele sofrimento. Pedi para a causa deste aparecer e para que meu corpo voltasse ao normal. Pedi para entender minhas lições, e, principalmente, entender o que eu tinha que aprender com aquela lição. Como toda professora de Yoga, queria entender em que eu estava desalinhada.

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Sentia-me como uma velha de 80 anos e, como todos os velhos, fui resgatar os meus passos.

Tinha voltado ao Brasil em 1997 e, durante 5 anos, a situação de anemia e de diarreia só piorava. Já não sabia mais o que fazer! Foi uma época de muito trabalho, em que eu dava 30 aulas por semana. Estava com meu estúdio de Yoga em Santa Teresa, Rio de Janeiro, e ainda tinha que dar aulas particulares em outros bairros da cidade, para complementar minha renda e pagar todas as contas. Foi, nessa época, que comecei meus estudos de Vedanta com a Mestra Gloria Arieira, o que foi um grande suporte na minha prática, no meu trabalho…no meu dia a dia, até hoje.

No dia 11 de setembro de 2001, o meu avião foi o último a pousar em Nova York durante o ataque terrorista.

Vi tudo acontecer! Vi as Torres caírem. Dizer que foi impactante é pouco. A vida levou-me de volta à Nova York, o lugar que sempre considerei a minha cidade, minha casa, depois de toda uma história de 11 anos morando lá. Estava apenas chegando para encontrar com minha mestra, Glória, no Ashram do Swami Dayananda na Pensylvania, e no primeiro puja que participei no Ashram, caiu um raio em minha cabeça: eu não estava feliz!

Aquela catástrofe de 11 de setembro, para mim, foi um sinal de que o mundo estava acabando e eu logo queria estar de volta a New York, justamente, ao lugar onde ia acabar primeiro.

Desconstruí tudo. Voltei para o Rio de Janeiro e, três meses depois, no mesmo ano, fui para Los Angeles começar tudo de novo. Saí do Brasil com uma vida montada: secretária, estúdio de Yoga, casa, carro, etc.

Comecei dormindo no sofá de amigos. Tive que comprar um carro, antes de ter uma casa, para a vida em Los Angeles. Ou seja, tudo de novo, novo.

Em Los Angeles, continuava com a diarreia e anemia, que me acompanharam até a minha volta ao Rio de Janeiro, em 2004 – com direito a um ano na Cidade do México. Ao final de 2004, resolvi ir para São Paulo, já que tinha dado aulas para o Rio de Janeiro inteiro e precisava de um desafio e uma mobilidade maior. Também fui porque, para uma professora de Yoga, seria melhor financeiramente.

Nesse momento, comecei a sofrer uma pressão social de familiares e amigos que diziam que eu tinha que parar em algum lugar para dar continuidade a minha vida. Acabei cedendo a essa influência e comecei a “me questionar” e “me trabalhar” para permanecer no Brasil.

Você acha que parei?

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Continuei viajando a trabalho. Fui fazer cursos de Yoga nos Estados Unidos – o lugar onde comecei a dar aulas e que sempre foi a minha referência em Hatha Yoga.

Foi então que, em 2007, uma amiga de Los Angeles me indicou para ser professora em um estúdio de yoga, em Palma de Mallorca. Eu sabia que Mallorca era na Espanha, mas não sabia que era uma ilha paradisíaca ao lado de Ibiza. Pensei: não posso ir para Mallorca porque seu eu for, eu não volto.

Foram muitos, muitos obstáculos até o último momento de ir. Achava que não ia conseguir, mas a cada obstáculo Ganesha estava presente. Ele removia e removia cada um deles, talvez só para me pegar na esquina.

Continuei com uma vida no trânsito, avançando sinais e na contramão. Em maio de 2008, em plena crise econômica europeia, lá estava eu no aeroporto com um gelado no estômago. Empurrando o carrinho com as malas, intuí que Mallorca ia ser o lugar.

E como foi! O lugar perfeito para eu morrer no hospital de trombose, se não fosse Ganesha retirar esse obstáculo.

De volta ao Brasil, foi o meu irmão, que trabalha na indústria farmacêutica, quem me explicou que o primeiro diagnóstico, a doença de Crohn, era uma doença autoimune e com uma medicação de altíssimo custo para o resto da vida.

No way, não tenho isso!”

Como o meu quadro foi um verdadeiro quebra-cabeças ­ em que não se encaixava nenhuma explicação plausível para a anemia, diarreia e para a trombose que sofria – o meu médico não tinha certeza do meu diagnóstico. Ademais, havia o fato de que eu não usava pílula anticoncepcional, não fumava e não era sedentária (muito pelo contrário!). Confirmou-se que eu não tenho a genética de trombose, então, como eu fui ter uma aos 44 anos?

Mais uma batelada de exames e, finalmente, na última internação, o meu aluno, o médico gastroenterologista disse: “Tira o glúten!”

E foi como mágica! A diarreia passou imediatamente e finalmente, depois de outros exames, fui diagnosticada como celíaca, alérgica ao glúten. Podemos ser intolerantes ou alérgicos, no caso de alergia, já nascemos com ela. E levei 44 anos para descobrir ela!

Devido a esse “descobrimento” alimentar, eu ainda tinha um desafio maior e muito mais desagradável: os bagels and muffins, desde os meus anos 20 em Nova York, tinham uma data marcada comigo. Não só porque continham glúten, mas também por causa do que não continham.

Na verdade, essa parte dos meus problemas já estava anunciada há muito tempo. Eu que fiz vista grossa por todos esses anos, mas havia chegado o momento de entender que eu não ia, de jeito nenhum, recuperar o meu corpo sem consumir proteína animal. E foram oito meses para regular meu sangue, com uma dieta de super proteína, e com minhas idas e vindas ao hospital para suplementos na veia. Naquela época, se algum amigo ou familiar dissesse para eu ir ao reiki, acupunturista, pai de santo, igreja…não importava…eu ia! Minha fé tomou outra dimensão e tudo me ajudava, de alguma maneira, na minha recuperação.

Entendi que as razões não são somente físicas para uma doença, pois nosso sistema é integrado, corpo-mente-espírito. Nunca é unilateral.

Entendi mais ainda que a prática de yoga não é separada de nossa vida. Ela está presente a todo momento. Não é só no tapetinho uma hora e meia, três vezes por semana. É também na constante auto-observação e presença no aqui e agora. No relacionamento consigo mesmo e com os outros.

Houve um realinhamento de tudo em minha vida, de valores, do cuidado comigo mesma e da importância do auto estudo e do estudo das Escrituras, para um suporte em nossas vidas. Entendi o valor da saúde e de cuidar da nossa “casa” de forma consciente e orgânica.

Minha vida mudou há onze anos, depois desse episódio. Não somente por eu ter parado de ingerir meu “veneno”, o glúten (hoje tenho mais energia do que quando tinha há vinte cinco, trinta anos), mas também pelo fato de eu ter visto a morte tão de perto.

Não era minha hora.

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E tive a oportunidade de renascer e de continuar a fazer o meu melhor, de honrar meus desejos e necessidades e de me distanciar dos frutos das minhas ações para concentrar-me na qualidade dessas, com mais atenção no espírito-mente-corpo. De enxergar a benção do Universo, que manda os obstáculos, mas que também manda o apoio de um time e as ferramentas para poder vencer esses obstáculos e poder aprender ser melhores com eles.

Aprendi a honrar nossas necessidades e saber que elas são diferentes pra cada um de nós. Que não somos todos os que temos o desejo de ficar em um mesmo lugar toda a vida. Muitos escolhem estar em movimento e plantando novas sementes por onde passam. Temos a liberdade de fazer nossas escolhas, e decidir como queremos criar e viver nossas vidas.

Não há certo ou errado, somente o que desejamos e precisamos naquele momento, com plena aceitação da diversidade e das infinitas possibilidades de se viver.

Neste momento, estou passando por outra desconstrução depois de quase oito anos morando na Cidade do México. Decidi que quero estar mais perto da Natureza e não mais em grandes cidades urbanas. E pra falar a verdade, ainda não sei aonde quero estar, mas o movimento de “me recriar” já começou e dessa vez será sem culpa, sem pressão social ou familiar, livre e consciente do meu momento presente.

Como se diz, o lar é onde mora o coração, e o meu está em muitos lugares. Mas esse meu corpo, nossos corpos, é o sumo lar desta vida, seja você quem for e o que decidir fazer.

Que nossas palavras sábias, na hora do tapete, sejam nossos passos expertos pelo mundo.

“May the talk we talk on the mat, be the walk we do in the world.”

 

Agradecimentos

                         Ao meu médico Samir Kalil, por ter salvado minha vida.

                             A Gloria Arieira, cujo ensino de Vedanta me salva todo dia.

                              Ao Yoga que me salva diariamente da minha própria loucura.

 

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Posted by

A native of Chicago, Ricky Toledano has lived in Rio de Janeiro, Brazil for over twenty years as a writer, translator and teacher. [a]multipicity is multi-lingual collection of reflections through the humanities.

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