A Maldição de Saraswati

by Ricky Toledano

traduzido por Liane Sarmento Magalhães

“Mas por que ajudar apenas as crianças brâmanes? Por que não ajudar todas as crianças? Por que não ajudar todas as que são pobres e famintas? Se vocês querem amar tanto a Deus, por que não limpam esse ghat ‘sagrado’ – que vocês dizem ser ‘o mais sagrado em todo o mundo’ – para que aquelas vacas, bem ali, não engasguem até a morte com aquela sujeira de plástico? Por que eu não posso sair daqui e alimentar as crianças que eu quiser?” berrou meu grande amigo, em atitude colérica, apontando ferozmente para as vacas. Mesmo que ele não estivesse entre os meus amigos mais próximos, eu poderia ter avaliado astrologicamente que o libriano diplomático e gentil – bem parecido comigo – que havia se aproximado do lago tão pacificamente, tinha sido perigosamente atingido e liberado para restaurar a justiça a qualquer preço.

E eu quero dizer a qualquer preço.

Irritado com os brâmanes que haviam tido a audácia de tentar coagi-lo a dar-lhes dinheiro, meu amigo do tipo bonito e forte por natureza tinha silenciado os cinco esqueléticos. Bem infelizes, meu amigo poderia tê-los esmagado, sozinho,  por ousar bloquear nosso caminho. Ele estava em tal estado de furor que comecei a pensar no que fazer, vendo agravar-se a sua reação ao que eu entendia como uma tentativa inescrupulosa dos brâmanes de salvar a própria dignidade com uma resposta condescendente. Eles cometeram um traiçoeiro erro de cálculo ao considerar as perguntas do meu amigo como ignorantes e sua atitude típica de alguém de uma casta “inferior”, daqueles que não compreendia a Tradição Védica.

Eles não só haviam insultado sua inteligência, mas tinham despertado a efervescente opinião do meu amigo racionalista e argumentativo sobre o preconceito doentio de casta, e – se a casta era de fato a carta que eles queriam jogar – naquele momento eles haviam ouvido o rugido de um dos guerreiros. Os brâmanes rapidamente se espalharam, percebendo que haviam escolhido o turista errado para intimidar com o que ficou conhecido no local como o “golpe da flor”, em que uma flor é posta na palma da mão de um turista incauta na chegada ao lago sagrado, e uma flor que só pode ser liberada de acordo com uma tradição, que naturalmente deve ser conduzida por brâmanes e requer certas “doações”.

Observei-os afastando-se apressados, olhando com desprezo, tentando manter a dignidade e, também, o que tinha sido desagradavelmente revelado como um negócio escuso. Era óbvio que eles não só estavam fugindo do meu amigo, mas também de suas perguntas, que permaneceram sem resposta, ecoando nos ghats do sagrado lago de Pushkar, a lágrima de Brahma, o lugar sagrado de peregrinação ao que tem sido tradicionalmente considerado o local do único templo erguido para Brahma – o Criador – em toda a Índia. Embora o templo tenha sido fundado na antiguidade por ninguém menos que Sri Adi Shankaracharya, tornando-se um centro de peregrinação por séculos, a cidade já havia se tornado uma meca turística hippy antes de minha primeira visita, dez anos antes.

Eu não pude deixar de me sentir um pouco responsável pelo incidente no ghat. Conhecendo os limites da tolerância do meu amigo, eu não teria sugerido ir a Pushkar se soubesse que sua religiosidade iria atingir um nível incivil. Dez anos antes eu havia encontrado os ghats da cidade pacificamente vazios e propícios à reflexão. Meu amigo havia acreditado em mim sobre o passado, mas o que parecia não ter mudado com o tempo eram os mesmos tipos de turistas, tanto os convencionais quanto os escapistas, assim como os murmúrios sobre como refrear alguns dos comportamentos mais inadequados de visitantes estrangeiros – como levar álcool e vestir roupas inapropriadas para a cidade sagrada – e a tentativa de conciliar um negócio turístico lucrativo, os costumes locais, graves problemas de infraestrutura ambiental e, é claro, a adoração ao Brahma.

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Curiosamente, o Grande – que juntamente com Shiva e Vishnu formam a trindade do hinduísmo – é muito pouco adorado pelos hindus. Há muitas histórias sobre a razão, mas a maioria se refere a variações da maldição de Saraswati, sua maior criação e sua esposa – Conhecimento – que o desprezou por sua luxúria. Como muitos grandes artistas, o Criador se enamorou de sua criação com paixão, de modo que não conseguiu desviar os olhos d’Ela, desta primeira e mais bela de todas as suas criações. Além de representar cada um dos quatro Vedas, diz-se que as quatro faces de Brahma que espreitam em cada direção nasceram para manter seu olhar sobre sua esposa, que sempre estava fugindo. Saraswati ficou irritada com Seu olhar persistente e saltou para o universo para evitá-lo. Foi então que sua lendária quinta cabeça brotou do topo de sua coroa e foi cortada por Shiva, a quem Saraswati havia pedido ajuda. O estranho e incontrolável casal, Criação e Conhecimento, acabou gerando Tudo o que existe, mas não sem seus escaldantes mal-entendidos, que, segundo a lenda, culminaram no grande yajna, ou sacrifício de fogo, realizado em Pushkar na presença de todos os Deuses – exceto Saraswati.

A Grande Dama havia chegado atrasada devido a todos os deveres que o Conhecimento requer e a cerimônia do fogo não poderia ser conduzida pelos Deuses sem suas consortes, de acordo com o ritual. Quando Saraswati finalmente chegou – apenas para descobrir que uma nova esposa, Gayatri, foi providenciada na sua ausência e estava sentada ao lado de seu marido – teve um ataque de raiva inédito que tão cedo não seria esquecido. Amaldiçoando o marido, ela proclamou que Brahma não seria adorado por ninguém, exceto por um dia por ano e em um lugar – Pushkar. Outros ocupantes do panteão não escaparam de sua ira. Vários deuses foram amaldiçoados como cúmplices na provisão de Gayatri, e suas maldições causaram tudo o que eles sofreriam conforme relatado nas lendas e mitos dos Puranas. E até mesmo suas irmãs deusas – Riqueza e Poder, quem sempre a haviam ofuscado com seu glamour e comentários acirrados sobre o que serve o Conhecimento sem os Recursos e Ação delas – receberam uma bela dose de Conhecimento por se recusarem a deixar seus maridos e acompanhá-la na retirada.

Seu relacionamento com suas irmãs deusas sempre havia sido difícil, apesar de naturalmente inseparáveis, uma vez que juntas formavam outra trindade, shakti, a energia desse universo. Embora fosse tão bela quanto suas irmãs deusas, curiosamente ela sempre se havia vestido com um tom branco opaco, ainda que puro, dispensando os adornos coloridos chamativos. As irmãs gostavam de lembrá-la de que ter recursos suficientes e tomar ação era necessário para alcançar o conhecimento. Como a Sabedoria, ela sempre sorria, sem a necessidade de desafiá-las com a pergunta: como seria uma vida sem sentido? Mas foi durante o seu ataque de raiva que ela lhes lembrou que uma vida dedicada ao poder e à riqueza – em oposição ao conhecimento – não tinha valor nenhum, não produzia nada: “Estéreis”, ela as amaldiçoou, agarrando sua veena antes de sair e isolar-se na montaria mais alta acima de Pushkar, provavelmente o lugar onde ela preferiria estar de qualquer maneira, uma vez que a deusa solitária jamais havia se interessado por pompa e cerimônia.

Não foi a primeira vez que a adorável esposa de Brahma o deixou sem palavras. Ele tinha perdido sua quinta cabeça porque cometeu o mais básico dos erros. Pode até ser chamado de erro original, aquele atribuído aos mortais, não aos deuses.

O Criador havia faltado com respeito à sua Criação, como se fosse um objeto – não um sujeito – como se pertencesse a ele, gerando assim dualidade, divisão, e desta forma submetendo-se ao desejo a partir de cobiçar um objeto, como se um objeto tivesse o poder da satisfação. Brahma havia sido enfeitiçado pela ilusão que ele próprio havia criado. Cego, ele não podia ver que ele era tanto a causa quanto a forma de Tudo o que existe. Hipnotizado pela beleza de um objeto, ele ansiava por possuí-lo, como se já não fosse dele, como se estivesse faltando, como se pudesse trazer satisfação, como se a felicidade dependesse de um objeto, algo externo, que já não era parte de toda a Criação.

Seria natural acreditar que Ele teria aprendido com seu erro. Mas então Ele escorregou de novo no grande ritual yajna em Pushkar, cometendo o mesmo erro quando se preocupava com o mero protocolo: em sua impaciência, Ele tratou Conhecimento como se ela fosse objeto substituível, dispensável.

Esse erro original chamado de ignorância, cuja correção é chamada de conhecimento, mais especificamente o Conhecimento de Brâman, como é ensinado pelos Vedas. Na verdade, é autoconhecimento: a sabedoria contida na consciência de si mesmo como indissociável do universo; em que não há diferença entre criador e criação, sujeito e objeto; em que a dualidade é apenas uma ilusão, por mais prático e atraente que um objeto possa ser. Portanto, não há nada neste universo que possa ser adquirido, obtido, possuído ou consumido que possa proporcionar satisfação. A única coisa que pode libertar do ciclo interminável do desejo é o autoconhecimento que é a Plenitude. É a sabedoria de que nada falta: já se é a Felicidade que se busca.

E a Plenitude não é substituível!

É por isso que Conhecimento ainda é venerada em sua bela forma pelos hindus até o dia de hoje, buscando sua bênção, o maior presente de todos. Quanto ao marido, bem… Ele sempre será adorado em Pushkar, pelo menos, apesar daqueles que se perguntam por que reverenciar um deus tão inquieto e que já cumpriu seu papel: a Criação deste e de todos os mundos já aconteceu.

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Meu bom amigo atendeu às expectativas de seu nome de raiz sânscrita que significa aquele que é poderoso, onipresente, vitorioso – pelo menos suas indagações furiosas certamente eram. Embora eu sentisse orgulho de sua perspicácia em questionar dogmas e firmeza em face do que concluímos ser hipocrisia, ao julgar os outros nunca se deve estar seguro demais de seus passos, mesmo pisando no solo mais firme. Alçapões e areia movediça têm uma maneira divertida de passarem despercebidos por aqueles que acreditam ter todas as informações necessárias para chegar a uma conclusão, se não pelo fato de que até mesmo os deuses já caíram em tais armadilhas.

Comecei a examinar meus passos considerando que muitos brâmanes – a tal chamada “casta alta” – frequentemente vivem em condições de extrema pobreza em toda a Índia. Esta situação pode, de fato, ter muitas razões, mas um fator importante é que o papel dos ofícios tradicionais, pouco lucrativos, de sacerdotes e professores passaram a ser náufragos em um mundo capitalista. Além disso, alguém que tivesse alternativa vasculharia por sua livre escolha as ruas e ghats atrás de turistas para viver? Eu acho que não. Mesmo assim, pode ser que tal atividade dê suporte às famílias, ainda que escassamente. As pessoas têm que encontrar maneiras de ganhar dinheiro neste mundo, uma situação que não posso mudar e na qual devo me incluir. E mais: há aqueles que podem considerar o meu trabalho igualmente fútil. Todos os dias nascem mais de nós neste mundo, o que significa que há mais de nós com quem devemos dividir a mesma porção, esgotando recursos para satisfazer nossos desejos que nunca diminuem. E o desejo humano nada mais fez do que se expandir desde que nasceu com a primeira criação de Brahma.

Portanto, antes de chegar a uma conclusão sobre pessoas sobre as quais nada sei, também achei importante considerar o contexto da Tradição Hindu, chamado sanatana dharma, que de fato tem sofrido ameaças – tanto exteriores quanto interiores – por ondas históricas de conversões forçadas ou por sedução, ou as revoltas internas e diferentes linhas de pensamento que surgiram ao longo do tempo. Pode ser um exagero, mas aqueles brâmanes esfarrapados que bloquearam nosso caminho poderiam ter feito parte – ainda que remotamente – de esforços recentes e desajeitados para restaurar certas tradições ou mesmo para trazer ordem ao turismo sem escrúpulos, mesmo que tais medidas sejam conduzidas de maneira extorsiva ou inconveniente.

E foi falando sobre um turismo inescrupuloso ao sair dos ghats e caminhando pelo bazar cheio de visitantes estrangeiros que vi uma curiosa camiseta pendurada em uma das típicas e coloridas lojas de souvenires. Nela estava escrito em uma fonte simples e em negrito: chai, chillum, chapati.

Não só sempre achei o ruído criado pelo uso de camisetas com mensagens chamativo, poluente e nada divertido, como nunca entendi por que as pessoas se associariam orgulhosamente a algumas poucas palavras e rótulos de forma tão pública, por mais inócuos que fossem. Chai, chillum, chapati, no entanto, era o oposto de inócuo; soava como algo suspeito. Era como se alguém tivesse encontrado um humor poético em resumir a cultura indiana a beber chá, fumar maconha e comer pão. Presumindo que a minha impressão imediata estivesse correta, o achei um insulto de valor agregado, considerando os muitos turistas estrangeiros já desrespeitosamente vestidos e com comportamento inadequado para puja nos ghats da cidade santa, inadvertidamente ou não.

Por isso me perguntei se deveria recuar da minha conclusão antes de dar outro passo: apesar de meu descontentamento com os porteiros brâmanes e independentemente de suas intenções, o comportamento deles me pareceu preferível ao dos desavisados turistas chai-chillum-chapati.

Conferindo minha leitura da camiseta desagradável com meu amigo, ele logo sorriu, aparentemente voltando ao seu ágil humor habitual depois de eu ter apontado a camiseta. Ele a achou mais engraçada que eu, mas depois confessou que era realmente um pouco estranha.

“Não achei nada divertida”, respondi.

“O que você esperava? Por que os turistas devem respeitar nossa cultura se nós, hindus, tratamos uns aos outros tão mal? Nós nos preocupamos mais com quem está bebendo álcool, comendo carne e se casando do que como nós tratamos uns aos outros … e fazemos negócios lucrativos coagindo-nos uns aos outros usando nossas tradições espirituais.”

Ele ainda estava irritado a pesar da aparência alegre dele, mas por muitas outras razões além do seu encontro com os brâmanes em Pushkar.

Seguindo as tradições de sua casta, a morte de seu pai alguns anos antes levou-o a executar os últimos ritos na lendária planície de Kurukshetra, o local da grande batalha do Mahabharata. Foi lá que ele encontrou o Negócio: recebendo um cardápio de pacotes para os últimos ritos com preços crescentes, ele foi instruído quanto às consequências espirituais de executá-los a um preço baixo. Aquele desfalque covarde no momento mais vulnerável de sua vida mudou a maneira de ver sua própria tradição, levantando questionamentos ressentidos, acendendo um tawa de ferro quente dentro dele, onde os Brâmanes indelicados de Pushkar haviam incautamente respingado umas gotas d’água, o que os fez correr para todo lado com queimaduras de segundo grau em sua integridade.

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Mais tarde naquele dia eu teria meu próprio encontro desagradável com o Negócio. Nosso Brahma puja seria finalmente conduzido por um brâmane que pedia pagamento por cada oração para cada membro da família: “Um bom parâmetro é de US$ 2.000,00 por membro. Quantos irmãos e irmãs, senhor?” O brâmane feliz me sentou sozinho com ele em um tapete, com meu thali de flores e oferendas no ghat.

“Sete”, eu disse insipidamente. O pundit ficou surpreso e contente com o tamanho da minha família ocidental.

“Você é casado?”

“Não”

“Vamos orar a Deus para lhe trazer uma boa esposa”

“Não perca seu tempo”, murmurei, achando mais graça na extorsão.

“E os seus pais? Vamos orar por eles.”

“Já morreram, eu disse, mais insipidamente que antes.

“Eu sinto muito, senhor. Vamos orar por sua moksha, sua liberação. Então, seriam 10 orações e os respectivos mantras …”

“Acredito que isso irá custar US$ 20.000”. Fingi que estava apenas confirmando algo inútil, como se a quantia representasse meros trocados para mim.

“Sim, senhor. Não se pode colocar um preço em moksha, a liberação final. As pessoas vêm de todas as partes do mundo buscando essas orações sagradas. Elas gastam grandes quantias de dinheiro em coisas sem valor: por que não gastá-lo em moksha? O que é o dinheiro quando há a saúde e a felicidade da família?”

“Lamento, não tenho US$ 20.000 no bolso.”

“Sem problema. Aceitamos cartões de crédito, senhor.”

“Quero ver você retirar esse valor do meu cartão”, murmurei.

“Desculpe, senhor?”

“Ouça, eu não tenho muito dinheiro, então o senhor decide o que é melhor.”

“Sem problema, senhor. Depois o senhor faz uma doação na barraca. O senhor vai ajudar crianças brâmanes pobres que não têm o que comer.”

O sacerdote iniciou os rituais, por meio dos quais eu repetia todos os mantras e orações em sânscrito – de forma vazia – já que o puja já havia sido arruinado para mim. Do outro lado do ghat sentava meu amigo com outro sacerdote, que aparentemente lhe prometia que os mantras sagrados teriam o poder de destruir seus inimigos.

“Por que eu iria querer destruir meus inimigos? Desejo saúde e felicidade para eles”, ele corrigiu o pundit em uma cilada. O pundit mudou logo de assunto ao ver que o furo na sua própria lógica havia sido habilmente exposto: que sabedoria pode haver em desejar-se mal a alguém?

Meu amigo e eu finalmente nos encontramos na beira da água para executar nossos rituais finais. Em nossa incessante competição para fazer rir um ao outro, não pude deixar de sussurrar em seu ouvido, “Número errado, hai!”, lembrando imediatamente do inesquecível filme blockbuster “PK” – cujo tema era precisamente a hipocrisia religiosa e a fraude – e ele caiu na gargalhada.

“Atreva-se! Faça! Eu te desafio a gritar isso aqui!”, ele respondeu, divertido. Continuamos a rir antes de mergulhar os pés no lago e recolher os thalis, as bandejas para oferendas e orações. Contamos um ao outro sobre as conversas fiadas que havíamos ouvido sobre doações, que não serviam para nada além de se tornar alvo de piadas infindáveis nos dias seguintes.

Na verdade, eu havia feito um último esforço para trazer alguma intenção ao meu ato de adoração depois da nossa palhaçada. Fechando os olhos, concentrei-me na respiração e joguei as flores no lago, tentando cultivar nada além de um sentimento de gratidão pela vida e por tudo o que foi criado. Lembrei-me da minha sorte de poder me afastar dos meus deveres, viajar para o outro lado do mundo para não fazer mais do que refletir e encontrar sentido em minha vida, buscar conhecimento, pedir desculpas pelos meus erros e agradecer pela oportunidade da vida, mesmo com todos os seus desafios desagradáveis.

“Terminou, bhai?” Ele me perguntou. O meu amigo estava mais do que pronto para ir embora.

“Sim” demorei em responder, tentando manter um momento de silêncio antes de retornar à nossa camaradagem, “Pronto! Vamos lá ser depenados.”

Os leões acompanharam com o olhar os antílopes voltando do bebedouro, e rapidamente nos conduziram na direção da barraca de doação – cheia de máquinas de cartão de crédito. Chegando ao topo do ghat, juntamos algumas centenas de rúpias entre nós e as depositamos na caixa de doações, ao som de um pundit furtivo, que assobiou como uma cobra entre os dentes: “Vocês estão de palhaçada!”

Não estávamos, apesar de geralmente estarmos mesmo. Simplesmente ignorando o pundit, nós subimos os últimos degraus depois de concluir nosso puja. E pouco antes de sair para a rua, meu amigo aproveitou a multidão ao nosso redor para dizer que iríamos encontrar algumas pessoas para alimentar, para contribuir de uma forma mais significativa para nós, liderada por nossa própria consciência para restituir o que sentíamos ser devido.

Consciência: a minha estava me incomodando desde que havia saído da beira da água.

Parecendo poluído e sem vida, não é preciso ser um cientista para ver que a situação do lago é terrível e que, por maior que seja a crença religiosa em sua pureza, ela jamais tornará o lago limpo milagrosamente. O consumo insaciável e irresponsável de água, areia e florestas em todo o Rajastão pode ser facilmente resumido na situação ambiental do Vale do Pushkar. O turismo está claramente agravando a situação – daí minha consciência sobre como todos nós participamos no esgotamento de recursos para as coisas que são importantes para nós. Mas essa não era a única coisa que pesava na minha mente. Percebi que há apenas uma maneira de limpar aquele lago – limpar qualquer lago – e isso é transformar uma visão inteira de fora para dentro. Pois embora uma compreensão intelectual da dinâmica das máfias de areia e de água, da corrupção, da economia ou da pobreza seja necessária e útil, nunca será suficiente para incitar a mudança se o indivíduo ainda se sentir incompleto e desejoso de mais conforto. É preciso ver que o anseio requer outro tipo de esforço, uma outra visão, e isto requer algum espaço.

Elevado no topo da montanha do outro lado do lago e acima do pôr-do-sol encontra-se o Templo de Savitri, dedicado à esposa contrariada do Brahma. É para onde Saraswati se recolheu para ficar sozinha com sua veena depois de seu ataque de ira. Bem acima do vale, gosto de pensar nele não apenas como o lugar de onde ela conseguiu a distância suficiente para ver a lágrima de Brahma formar o lago, mas também onde obteve o espaço necessário para executar sua maior arte – um talento muito mais além do que tocar o veena.

Como o Conhecimento, ela é a capacidade humana para viveka – o discernimento – o poder de saber o que é real e o que não é, assim como diferenciar entre todos os muitos objetos, ações e pessoas neste mundo. Portanto, não é apenas a capacidade de distinguir entre notas musicais, mas também de determinar se um lago é limpo ou não, apesar do que os outros gostariam que você acreditasse; é também a capacidade de julgar se alguém chegou para ajudá-lo a orar ou enganar espiritualmente; e concluir quando seu marido e toda a sua família deram mais valor a meros rituais por causa do que os outros poderiam pensar do que ter um pouco de paciência para esperar que o Conhecimento chegasse para fazer o que deveria ser feito!

Viveka é considerado uma grande bênção e a aptidão desenvolvida dele é de fato a marca da inteligência. Mas viveka vem com uma pegadinha, o que eu gosto de chamar de a outra maldição de Saraswati: enquanto é naturalmente voltado para o exterior tocar, provar, sentir, ouvir e ver a diferença entre os mais sutis tons de cinza do Universo, é muito difícil voltar-se para dentro para testemunhar o mesmo na mente para descobrir-se a si mesmo.

É por isso que mesmo a mente mais brilhante, capaz de discriminar todas as coisas, pode ser desprovida de sabedoria, uma mente insensata que trata dos outros com insensatez.

Não é sem razão que a própria palavra discriminação – na presença de preconceito – poder adquirir outro significado, que se refere a algo desagradável. O uso mais negligente de viveka é avaliar nada mais do que as diferenças óbvias entre as pessoas e, assim, tratá-las com desigualdade, ao desconhecê-las como partes íntegras de toda a Criação. A apropriação indevida de indivíduos como se fossem objetos, colocando-os em uma das três caixas da mente – rotulado, malquisto e indiferente – é desconsiderar o sujeito em todas elas. Portanto, cobiçar, desdenhar ou ignorar os outros de acordo com a casta, credo, cor e gênero é o oposto de tratar os outros como você desejaria ser tratado, o que compromete o próprio chão que você pisa.

Mesmo quando firmemente apoiado em um ghat de pedra.

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Não foi coincidência Saraswati recolher-se ao topo da montanha. As montanhas estão associadas ao conhecimento, porque são longínquas e necessárias para enxergar-se as distâncias. E diametralmente é necessário muito espaço interno para que se possa praticar a movimentação de viveka ao seu redor na direção de seu próprio interior, separando a mente e os pensamentos, para poder ver a mente à distância, discernindo como ela funciona. É necessária uma prática constante e implacável para desfazer a maldição de Saraswati. É como aprender a tocar um instrumento, o que deve ser repetido, repetido e repetido até que o viveka possa dissipar não apenas as conclusões falsas dos outros, mas as que temos de nós mesmos como necessitados e limitados, insatisfeitos, desconfortáveis, solitários, divididos, separados, diferentes – incapazes de ver a nossa indivisibilidade com Tudo o que existe.

Somente então a compaixão necessária para limpar um lago pode florescer em um ato de generosidade – percebendo que existem coisas mais importantes do que conseguir o que se quer. É a descoberta de ser tão rico que se pode fazer um esforço mais importante do que aderir aos próprios desejos intermináveis (e os dos outros) e, assim, tornar-se portador de presentes reais, regalos de verdade. Um ato de paz. Um momento na vida quando todos lucram.

E isso foi a lição que meu amigo rudemente ofereceu pela segunda vez naquele dia.

Em pé na frente do caldeirão quente de uma confeitaria à noite, sentimos o puxão de pequenas mãos em nossos kurtas. Eram meninos pequenos, sujos, obviamente mendigos. Quando pediram a iguaria local, malpua – a ridiculamente doce panqueca cozida em xarope açucarado – resolvi intervir: “Não, bhai, isso não é comida. Se vamos ajudar, vamos encontrar algum daal ou pelo menos um kachori.”

Ele me olhou brevemente para registrar minha queixa, mas ignorou-a, continuando sua conversa com as crianças tagarelas que pulavam alegremente, ansiosas.

Quando o vi se mover para comprar o malpua para as crianças, tentei intervir de novo, mas ele me silenciou com a palma da mão direita: “Eu vou dar o que eu quiser. Ninguém pode me dizer o que tenho que dar e o que não dar a ninguém. Eu ajudo qualquer criança do jeito que eu quiser, mas ajudo. Eles estão felizes; eu estou feliz. Você pensa demais.”

Teri…” Mordendo a língua, eu me calei para não xingar no mais sujo Hindi imaginável.

O insulto apaziguou-se rapidamente quando vi como as crianças estavam felizes comendo seus doces. Eu sorri. Como fui tolo! Como fui cego. Apesar de todo o meu viveka, eu não conseguia ver que não era realmente sobre comida ou ajuda: as crianças simplesmente queriam malpua! Eu também fico feliz quando a vida me dá os doces que eu quero: por que não oferecer a mesma generosidade às crianças? Eu já havia consumido tantos recursos deste mundo apenas para estar lá, ao lado dessas crianças. Que grave erro cometemos quando achamos que sabemos não apenas o que é melhor para as pessoas, mas qual será o resultado de nossos esforços – apesar de todo o nosso conhecimento.

E eu nem havia percebido o quanto o dom de oferecer havia feito meu querido amigo feliz. Depois de bruscamente estabelecer o meu limite, ele se desarmou do furor que havia dentro e ao redor dele, conversando alegremente com as crianças que riam, comendo seu malpua. Pois o primeiro beneficiário de qualquer ato de bondade será sempre o doador; os segundos serão os receptores óbvios, que abrem as mãos e sorriem em gratidão; e eu gosto de pensar que há ainda um terceiro: aqueles que assistem e aprendem de longe – mesmo quando detestam malpua e se aproximam da bondade em uma ruela escura e movimentada de Pushkar.

Olhei para cima e para baixo para um ghat da rua principal, tendo um vislumbre do luar brilhando no lago sagrado. Eu me perguntei se havia sido a consciência de Brahma que o tinha levado a derramar uma lágrima, formando o lago de Pushkar, quando ele percebeu o grave erro que havia cometido, se preocupando mais com o protocolo – o que Ele achava certo ou o que os outros iriam pensar – do que com o Conhecimento em si e todo a sua Plenitude.

ओम् तत् सत्

Agradecimentos

A minha professora-ji, Gloria Arieira, quem me colocou no caminho para sabedoria, não importa como eu me desvie.

A Mr. Vibhu Khanna, mais do que o meu amigo, mais do que o meu irmão, parte de mim.

A Liane Sarmento Magalhães pelo carinho da tradução.

Todas as fotos da Pushkar por Ricky Toledano.

Posted by

A native of Chicago, Ricky Toledano has lived in Rio de Janeiro, Brazil for over twenty years as a writer, translator and teacher. [a]multipicity is multi-lingual collection of reflections through the humanities.

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