Cazé Arte: entre cidades e tintas | Between cities and paints

A historia do Cazé, o grande artista urbana da Lapa | The story of Cazé, the urban artist of Rio de Janeiro

por Ricky Toledano (English version below)

Cazé (direito/right) em Guinea-Bissau

Sou alto, né?” ele me disse, ao explicar como pulou de uns quatro metros de altura do andaime para escapar da briga de torcida, quando foi convidado a levar arte de rua para um país onde ela não existe. Estava pintando um retrato do herói nacional, Amílcar Cabral, na grande parede de um prédio, finalmente no andaime depois de muito tempo parado ao chegar ao país devido à falta de material, já que não existem lojas de arte e nem graffiti shops em Bissau, capital da Guiné Bissau, na África Ocidental. “Tentamos levar sprays por Portugal, mas não tivemos sucesso. Tive que trabalhar com os materiais que havia na própria Bissau. A tinta de parede lá era muito aguada e não tinha muita cobertura, eram necessárias muitas demãos de tinta para se obter um bom acabamento. Não havia levado pincéis e felizmente o meu assistente no projeto tinha um pincel excelente; aquilo me salvou e fiz o mural todo com ele.”

na obra em Guinea-Bissau
mural de Amílcar Cabral por Cazé em Guinea-Bissau

Cazé me descreveu a experiência em Bissau como o maior desafio que tinha enfrentado na vida, não só como artista, mas como superação, porque as dificuldades haviam sido muitas, desde a chegada em Bissau até a volta para casa. Na chegada, deparou-se com o dialeto local, já que lá o povo na sua maioria não fala o Português da Colônia e sim o Crioulo, uma mistura de línguas étnicas e europeias. Depois adoeceu e teve que trabalhar com uma sinusite intensa. A plataforma elevatória que o içava até o topo do mural, com cerca de 18 metros de altura, não tinha autonomia e precisava ser controlada por um operador que lhe deu muito trabalho: “Não tinha o menor interesse em me ajudar e tampouco fazia questão. Eu brigava com ele todos os dias; às vezes chegava atrasado ou saía mais cedo; em alguns dias não foi trabalhar. No último dia, abandonou o posto de trabalho e foi buscar a mulher no aeroporto – me deixou pendurado lá em cima a ver navios – era um louco!”

Eu gritava para o Nuno, o assistente que fazia a intermediação e traduzia tudo, lá do alto do prédio: “Imagina você a 18 metros de altura ter que berrar lá de cima para te colocarem um pouco para esquerda ou para a direita? O cara debochava de mim, me sacudindo a 18 metros de altura! No começo de cada dia eu tinha uma crise de nervos. Chegava a me coçar e ter alergia, de tantos problemas que tinha com esse cara – foi tudo uma loucura!”

Então entendi que os problemas do projeto haviam começado bem antes do décimo-oitavo metro. Foi lá pelos quatro que o Cazé experienciou, de camarote, uma briga de torcida como ele nunca tinha visto, nem na sua cidade natal, o Rio de Janeiro: “Do nada, as pedras começaram a voar. Eu simplesmente não entendia nada; ao redor gritavam em puro Crioulo. Segurei na barra do andaime e me pendurei para reduzir a altura, e pulei para baixo para não ser apedrejado. Os times de lá são de bairro, e são extremamente bairristas!”

Olhando para ele, calculo então que Cazé deveria ter pulado daquele andaime em Bissau da altura de uns dois metros. Ele é alto, sim, mas estava acompanhado por um baixinho quando o conheci, o filho dele, Joaquim, de um ano e pouco e cheio de alegria. Sempre quis conhecer o Cazé. Tenho acompanhado a sua obra ao longo de 10 anos, um trabalho que sempre me surpreendeu ao andar pelo bairro onde também moro, no Centro do Rio de Janeiro. E confesso que os murais dele são os meus prediletos: captam com grande humor e cor o cotidiano carioca, quando não são autobiográficos, ilustrando sua busca como artista urbano.

Ao perguntar sobre o seu trabalho, não esperava ouvir essa história de Guiné-Bissau, provavelmente porque ele tampouco esperava vivê-la ao embarcar para África. Começou a contá-la para responder à minha pergunta sobre quais das suas obras ele mais gosta: “Não tem um favorito, não, mas gostei muito da experiência em Guiné-Bissau. Foi a maior experiência da minha vida, as muitas dificuldades que tive lá se transformaram em aprendizado. Aprendi um pouco do dialeto; fiz grandes amigos; conheci um povo muito hospitaleiro acima de tudo, com uma cultura muito rica. Pude ver de perto algumas tradições, visitar um museu étnico que mostrava um pouco das etnias presentes no país, conhecer a comida local e sentir um pouco do calor.”

Não foi o primeiro trabalho dele fora do Brasil. Já havia ido a Lisboa pintar um hostel (pintura no HUB, abaixo, centro); a Paris fazer um mural (abaixo, direito) e ao centro da França para participar de uma residência artística; e também a Londres (mural em Shoredich, abaixo, izquerda):

Nunca encontrei palavras exatas para descrever minha própria paixão pela arte urbana. Sempre aproveitei viagens para fotografar as obras e reparei como se pode saber sobre uma cidade ao escutar as paredes ao redor. Procurar as obras deixadas nas paredes e ler suas mensagens poéticas para mim sempre foi uma maneira mais educativa e divertida de  conhecer o que um determinado povo acha belo, o que critica, o que lhe preocupa, o que acha cômico e como se olha, melhor do que ir a um museu – aquele programa que, muitas vezes, mas nem sempre, costuma ser a visita a um monte de objetos retirados dos respetivos contextos. Ao contrário, não há nenhuma falta de contexto na rua.

O Cazé foi mais preciso do que eu: “A arte urbana é democrática. O mural é público mesmo. Está aberto a todos e para todos. 24 horas. Não discrimina. É grátis. Todo mundo pode tirar uma foto e divulgá-la. Sem censura. Faz a cidade e a rua serem um museu a céu aberto. Faz todo mundo refletir.”

Como todos os artistas, ele passou por várias fases. Começou a fazer arte urbana em 2002, fazendo bombs, letras gordas e rápidas, e personagens aleatórios de um imaginário particular, mas se dedica profissionalmente ao ofício de artista urbano desde 2016.

Andando pelo nosso bairro nos últimos anos, reparei numa sequência dele de temas musicais e de jazz: “Ouvia Jazz desde pequeno com minha mãe. E em 2017, uns amigos abriram um restaurante aqui na Lapa com shows de jazz. Eu pintei o restaurante, fazendo alguns murais temáticos para eles. Na época, conheci a minha esposa na casa, ouvindo o show, e a paixão se intensificou ali, pois ela canta jazz e a família é de músicos de jazz, e daí em diante vieram as inspirações para os murais.”

O vaivém de fases artísticas às vezes é doloroso. No dia em que eu o conheci, Cazé publicou no Instagram (@cazearte), com muita alegria e sabedoria, como tinha vencido uma barreira artística, uma tanto técnica quanto pessoal. O muralista raramente consegue transferir o mesmo poder de desenho e pintura para o espaço pequeno e limitado que proporciona uma tela tradicional. O contrário é mais raro ainda. Ao ver o sucesso dele com um quadro lindo, eu não acreditei que ele tinha conseguido, e fiquei mais surpreso ainda pelo talento de se expressar:

Bloqueio criativo! Que isso? Nunca vai acontecer comigo. Jamais! .
Um belo dia ele bate na sua porta 🚪 ou melhor, invade a sua vida de uma maneira que você, na sua zona de conforto não espera.
.
Ele vem sem avisar! .
Com o tempo descobri que ele é necessário para podermos iniciar uma nova trajetória artística, vem para te amadurecer como artista, destruir seu ego inflado e te colocar no seu devido lugar.
.
Comigo foi assim, em 2015/16 nascia uma grande insatisfação pessoal com meu trabalho, entendi diversas coisas na minha vida, dentre elas, a que me chocou, eu nunca tinha me dedicado o suficiente como artista, sentado realmente pra estudar, aprender de verdade, ir atrás de um mestre ou uma mestra, que entendesse um mínimo de alguma coisa ligada ao meu universo artístico. Daí se inicia uma nova saga, sair da zona de conforto, buscar informação, investir em conhecimento e acreditar, acima de tudo! .
Fui fundo, me joguei! Me formei em Character Design, com o melhor professor que já tive @pauloignez.art , me apresentou um universo antes inimaginável, foi incrível esse período da minha vida, na sequência entendi que precisava aprender mais, pois não cursei Belas Artes e precisava recuperar esse tempo perdido, vi a possibilidade de estudar pintura clássica com um professor chamado Marcus, o cara é foda, detém um conhecimento de pintura absurdo e como todo pintor clássico, severo e exigente. O encontrei num curso de pintura óleo para aquelas tias aposentadas, me perguntava o que estava fazendo ali, mas sabia que o meu objetivo era sugar ao máximo daquele cara, paralelo à isso nascia o #366barbudinhos e um acúmulo de conhecimento absurdo, cabeça sempre fervendo 🥵, ritmo rua a milhão também e o projeto 366 ganhando uma visibilidade muito positiva…
.
Nascia a oportunidade de pintar a minha primeira tela encomendada, tudo por conta desse projeto. Lá fui eu me planejar, me planejei, me cobrei tanto, exigi tanta coisa de mim mesmo que acabei explodindo em meio a isso tudo. Foi tanta bagagem adquirida em tão pouco tempo e de repente, quando vi, nascia o meu primeiro #bloqueiocriativo …

Como escritor, reconheço a dificuldade de deparar-se com o vazio, aquele bloqueio apenas vencido pela perseverança e o entendimento que nós não decidimos a hora certa para a criatividade. Então, senti-me orgulhoso do rapaz do bairro que atravessou várias pontes para se aprimorar não só como o artista que se lançou para o mundo – e até de um andaime – mas como pessoa que comparte sua busca para o aprimoramento pessoal ao encarar os desafios.

Visite Cazé’s online store at: https://www.cazearte.com/shop

Cazé Arte: between cities and paints

by Ricky Toledano

“I am tall, right? ” he explained, inferring how he had managed to jump down about four meters from the scaffold to escape the fight between the hooligan gangs below him, in a country where he had been invited to bring street art to a country where there had been none. Cazé had been painting a portrait of their national hero, Amílcar Cabral, on the broadside of building, finally at work and upon the scaffolding after idling for a long time since his arrival in Bissau, capital of Guinea-Bissau in Western Africa, due to the lack of materials, because there are no art supply stores or graffiti shops in the country. “We unsuccessfully tried to bring sprays from Portugal. I had no choice but to work with the materials available in Bissau itself. The wall paint there was very watery and did not have much coverage, many coats of paint were needed to obtain a good finish. I had not brought brushes and luckily my assistant on the project had one decent brush that saved me. I had to do the entire mural with it.”

on location in Guinea-Bissau
mural of Amilcar Cabral by Cazé in Guinea-Bissau

Cazé described the experience in Bissau to me as the greatest challenges he had ever faced, not only as an artist, but one of perseverance, because the difficulties had been many from the day he started the project in Bissau until the day he returned home. Upon arrival in Bissau, he immediately confronted the local dialect, since most natives do not speak Colonial Portuguese, but rather Creole, a mixture of native and European languages. Then, Cazé fell ill and had to work with a severe sinusitis. The elevator platform that hoisted him to the top of the mural, about 18-meters high, was not self-driven and needed to be controlled by an operator who gave him nothing but a hard time: “He had no interest in helping me, nor did he care. I fought with him every day; sometimes he arrived late or left early; some days he didn’t go to work. On the last day, he left his job and went to pick up his wife at the airport, leaving me hanging up high to watch ships go by—he was crazy! ”

He would have to shout to Nuno, the assistant who did the intermediation and translated everything, from the top of the building. “Can you imagine from 18 meters high having to scream from up there to put you a little to the left or to the right? The guy was making fun of me, shaking me 18 meters above ground! At the beginning of each day I had a nervous breakdown. I used to itch and get allergies from the many problems I had with this guy—it was all nuts! ”

Telling his story of Bissau, it was obvious that the project’s problems had started well before the eighteenth meter. In fact, it was around the fourth that Cazé experienced a hooligan fight from a box seat—like nothing he had never seen, even in his hometown of Rio de Janeiro: “Out of nowhere, the rocks started flying. I just didn’t understand anything; the two crowds were shouting in Creole. I took hold of the scaffold bar and lowered myself downward to reduce the height, and jumped down in order not to get stoned. The fighting teams there represent neighborhoods, and they are extremely turf-happy!”

Judging by the size of him, I calculated that Cazé must have jumped from that scaffold in Bissau from a height of about two meters. He is tall indeed, but on the day I met him, he was accompanied by a shorty: his son, Joaquim, age 2 and full of joy. I had always wanted to meet Cazé. I have been following his work around the neighborhood for about 10 years.  His painting always surprised me when walking around where we both live in the Center of Rio de Janeiro. I confess that his murals are my favorites: they capture the daily life of Rio with great humor and color, when they are not autobiographical, illustrating his quest as an urban artist.

When I sat down to talk to him over coffee, I had not expected to hear this story from Guinea-Bissau, if not for the fact that he had also not expected to live it when embarking for Africa. He started to tell it in order to answer my question about which of his works he likes best: “I don’t have a favorite, but I really enjoyed the experience in Guinea-Bissau. It was the greatest experience of my life, the many difficulties I had became pure learning. I learned a little of the dialect; I made great friends; above all, I met a very hospitable people with a fascinating culture. I experienced traditions up close; I visited a museum that told the stories of some of the ethnicities present in the country; I tried the local food—and felt the heat of the country.”

It was not his first job outside Brazil. Cazé had already been to Lisbon to paint a hostel (in HUB Lisboa, below, center), to Paris to paint a mural (below, right), to the central France to participate in an artistic residency, and also to London (Shoreditch, below, left):

I have never been able to describe my own passion for urban art. While travelling, I photograph the paintings around me, noticing over the years how I got to know cities better by listening to theirs walls. Searching for the art on the street and reading their poetic messages has always been a more educational and fun way for me to get to know what a certain people think is beautiful, what they criticize, what worries them, what they find comical and how they see the world around them. I find the urban scavenger hunt much more interesting than going to a museum. I am not one for museums, a program that is often, but not always, a visit to see a lot of objects devoid of their respective contexts. On the contrary, there is absolutely no lack of context on the street.

Cazé was more precise than me: “Urban art is democratic. A mural is truly public. It is open to everyone and for everyone. 24 hours. It does not discriminate. It’s free. Everyone can take a picture and post it. There is no censorship. It makes the city and the street an open-air museum. It makes everyone reflect.”

As all artists, Cazé has gone through several phases. He started doing urban art in 2002, designing the typical bombs, fat and fast lyrics, as well as the random characters from his own imaginarium. He has been professionally dedicated to the craft of urban artist since 2016.

Walking around our neighborhood in recent years, I have noticed a sequence of musical and jazz themes: “I listened to jazz since I was little with my mother. And in 2017, some friends opened a restaurant here in Lapa with jazz shows. I painted the restaurant, making some themed murals for them. I met my wife at this venue, listening to the shows, and my passion for jazz intensified there. She is a jazz singer and her family is made up of jazz musicians—and that’s where the inspiration from the murals came from.”

The back and forth of artistic phases can often be painful. On the day I met him, Cazé published on Instagram (@cazearte), with great joy and wisdom, how he had overcome an artistic block that was as technical as it was personal. Muralists are rarely able to transfer their dominion of illustration and painting to the small, limited space of a traditional canvas. The reverse is even rarer. Seeing the picture of his success with a beautiful painting, I couldn’t believe that had finally succeeded, and I was further surprised by his talent for expressing himself:

Creative block! What’s that? Who, me? Never! .

One fine day it knocks on your door 🚪 or rather, invades your life in a way that you, in your comfort zone, do not expect.

It comes without warning! .

Over time I discovered that it is necessary to start a new artistic trajectory, it comes to mature you as an artist, destroy your inflated ego and put you in your right place.

It was like that in 2015/16. A great personal dissatisfaction with my work was born, I understood several things in my life, among them, what shocked me, I had never dedicated myself enough as an artist, really sitting down to study, really learn , go after a teacher who understands at least something connected to my artistic universe. Hence, a new saga began, leaving the comfort zone, seeking information, investing in knowledge and believing, above all! .

I went deep, I threw myself! I graduated in Character Design, with the best teacher I ever had @ pauloignez.art, who opened me up to a universe that was previously unimaginable, it was incredible this period of my life, then I realized that I needed to learn more, because I didn’t study Fine Art and I needed to make up for lost time. I saw the possibility of studying classical painting with a teacher named Marcus. The guy is awesome! He has an absurd amount of knowledge regarding painting and like any fine painter, he is severe and demanding. I met him in an oil painting course for those retired ladies, he wondered what he was doing there, but he knew that my goal was to get the best of him, and at the same time # 366barbudinhos was born, an accumulation of crazy knowledge, my head always boiling 🥵, the rhythm of the street at full blast, and the 366 project gaining real visibility …

The opportunity to paint my first commissioned canvas was born, all because of this project. There I went to plan, planned, covered myself so much, demanded so much of myself that I ended up exploding in the middle of it all. It was so much baggage acquired in such a short time and suddenly, when I saw it, my first #creativeblock was born …

As a writer, I recognize the difficulty of facing that emptiness, that creative block that is only ever overcome by perseverance and the understanding that that moment of breakthrough is not necessarily decided by us.  That is why I was proud of the boy from the neighborhood who crossed several bridges to invest in himself not only as an artist who successfully launched himself into the world—and even from a scaffold—but as a person who shares his quest for personal improvement when facing the toughest of challenges.

 

Posted by

A native of Chicago, Ricky Toledano has lived in Rio de Janeiro, Brazil for over twenty years as a writer, translator and teacher. [a]multipicity is multi-lingual collection of reflections through the humanities.

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