Ludovica e a Arte do Yoga

Mais do que a história de como a imprensa nunca descobriu sobre o escândalo de Ludovica, minha história fala sobre envelhecimento. Sobre ética. Porém, mais importante, sobre como a visão do Yoga é transformadora.

por Ricky Toledano

traduzido por Liane Sarmento Magalhães

Lu-do-vi-ca: a ponta da língua desce e sobe em quatro etapas pelo palato, na quarta, a garganta. Lu. Do. Vi. Ca. Ela era Ludô, simplesmente Ludô, pela manhã, pisando sobre quatro patas com “meias” que não combinavam. Ela era Vica no sofá. Mas em meus braços ela é sempre Ludovica—digo, enquanto eu brinco com as primeiras linhas de Lolita de Nabokov. E assim como na clássica história, Ludovica chama muita atenção pela sua idade, apesar de ser muito, muito mais velha que Lolita. Enquanto caminho com ela no parque, os estranhos pensam que ela é uma jovem felina. Provavelmente sou o único que consegue perceber seus pelos grisalhos e a rigidez de sua coluna. Sua beleza permanece fantástica entre os gatos e continua atraente na velhice. Além disso, apesar da imagem curiosa de um homem passeando ao lado de um gato sem coleira nem guia, os estranhos a veem e não a mim, talvez porque eu tenha chegado a uma idade em que começo a me tornar invisível, não mais um objeto de desejo, embora eu seja mais jovem e com uma saúde muito melhor do que a de Ludovica.

O veterinário a teria condenado à morte, não fosse pelo fato de que, em uma visita recente, ele havia acabado de sacrificar um gato em melhor forma do que Ludovica. O gato [falecido] era ‘mais saudável’, disse ele, de acordo com os exames de sangue, mas biologia não é matemática – então não sei o que você está fazendo, mas continue assim, porque esta gata está clinicamente bem.

Sem outras opções para minha gata longeva—que poderia se mostrar teimosa como uma mula ou feroz como um tigre se fosse enganada ou forçada a tomar remédios—, abri o saco de lona e Ludovica rastejou para dentro dele sozinha, antes de partirmos em minha bicicleta. Ela sempre foi altiva demais para ser escondida em uma caixa de transporte, enjaulada como em um espetáculo de circo. Escondida em seu saco, Ludovica mais uma vez escapou dos paparazzi.

O veterinário não foi o primeiro a se surpreender com Ludovica. Em nossas caminhadas matinais, no parque em frente à minha nova casa, vizinhos e estranhos param para nos ver andando lado a lado, às vezes um na frente do outro em fila indiana, enquanto cruzamos o parque: – Mas eu nunca tinha visto um gato obedecer ordens como um cachorro! Eu explico que ela é uma gata idosa que está fazendo fisioterapia. – Mas quantos anos ela tem? perguntam os paparazzi bisbilhoteiros no parque.

Os amigos falam que eu venho dizendo que Ludovica está com dezesseis anos há quatro anos. Realmente não me lembro mais da idade dela. Perdi a noção dos anos, porque tantos se passaram desde que ela foi encontrada—perdida—uma gatinha abandonada do tamanho da minha mão, que teria sido atacada e despedaçada por cães de rua se não tivesse sido recolhida um instante antes. Ela cresceu e se tornou a cara do meu gato anterior, que tinha acabado de ser assassinado pelo pastor alemão do vizinho, cujo instinto era ficar de emboscada nas sombras, silencioso e imóvel como uma aranha, esperando a chance de morder o pescoço do meu gato—o que ele finalmente fez por ocasião de um descuido. A chegada de Ludovica foi uma reencarnação misteriosa do meu gato assassinado, dando mais uma chance justa à máscara assimétrica e às “meias” descombinadas de um siamês mestiço.

Ou deveria dizer que eu tive uma segunda chance?

– Que nome você vai dar a ela? perguntou um amigo, que começou a rir antes mesmo de eu pronunciar Ludovica, já esperando o meu costume de batizar animais e apelidar os amigos. Dei uma olhada na gatinha aninhada no meio do sofá depois do banho, como que tomando posse do seu trono, e imediatamente me lembrei da filha de um diplomata, filha de um amigo-de-um-amigo-de-um-amigo de outra parte do mundo. Quando nos reencontramos no Rio de Janeiro, “Ludovica” me convidou para jantar na sexta-feira seguinte em sua casa. Quando cheguei com um atraso aceitável de quinze minutos à sua residência chique, com flores e uma garrafa de vinho, o porteiro fez uma cara intrigada e sussurrou no interfone. Ao abrir a porta, Ludovica vestia um roupão de banho e uma toalha enrolada na cabeça, uma moldura ornamental para o seu rosto confuso. Ela perguntou: O que você está fazendo aqui? Respondi com firmeza que ela havia me convidado para jantar na sexta-feira às 19h. – Oh! Devo ter esquecido. Sem problemas. Pode entrar.

Eu já não queria entrar, mas não vi maneira de recusar o convite. Fui cumprimentado com entusiasmo pelo pai de Ludovica, que ficou eufórico por ter um visitante que falava inglês com quem beber uísque. Sua esposa, a amiga-de-um-amigo-de-um-amigo, a diplomata, não se deu ao trabalho ir me cumprimentar. Sei que a conversa com ele foi agradável, talvez até interessante, mas não me lembro dos detalhes, porque eu estava ao mesmo tempo monitorando a situação ao meu redor, esperando uma oportunidade para me dirigir para a porta, e me concentrando em não ficar bêbado com o estômago vazio, já que quase duas horas haviam se passado e não havia sinal de comida. Ocorreu-me que deveriam estar esperando que eu fosse embora para então jantar, e tentei sair, mas me rendi ao convite para jantar da diplomata, que finalmente saiu da cozinha onde estava escondida, apenas para arremessar um prato de azeitonas diante do marido, lançando contra ele um olhar fulminante que ele nem se deu ao trabalho de observar. A família de três membros falava inglês por falta de uma língua comum. Mãe e filha trocavam palavras curtas e abafadas em uma língua que não compartilhavam com o homem da casa. A falta de harmonia entre os três era desconcertante, para não falar de como Ludovica havia sido incapaz de dizer-me uma palavra depois de abrir a porta e deixar de lado as flores e o vinho. Ela ficou jogada no meio do sofá, uma bela mulher, enrolada nas dobras brancas e felpudas do roupão e do turbante, assistindo televisão com um ar descarado de realeza. Mais tarde, apareceu à mesa de pijama para brincar com a comida. Sua mãe comeu em um silêncio gélido. Continuei a conversar com o pai dela, que bebia uísque junto com a refeição.

Vindo de uma cultura em que receber um convidado é um ato sagrado, minhas emoções se transformaram várias vezes ao longo da noite, variando do desconforto à indignação, depois à pena e à diversão com a situação bizarra, porque mesmo que eu tivesse de fato chegado no meio de uma briga de família não havia justificativa para aquele comportamento. Eu nunca tinha sido recebido de maneira tão rude e desleixada, a ponto de meu sentimento de ofensa ceder ao espanto, como só poderia acontecer na presença de outra história, como um filme mudo em preto e branco passando diante dos meus olhos, contado em uma pantomima que eu não conseguia decifrar. Eu fiz várias tentativas de sair, todas frustradas pelo pai suplicante, um homem desesperado por companhia. Eu não podia culpá-lo: era como se sua própria esposa e filha também o tivessem recebido à porta como haviam feito comigo, deixando entrar um convidado indesejável que seria tenazmente ignorado. Decidi ficar com ele o máximo que pudesse, por solidariedade.

O motorista de táxi que me levou para casa estava pasmo: – Uma diplomata? perguntou, antes de soltar a gargalhada aveludada típica dos fumantes. – Espere!  Eu respondi, – Tem mais!

E assim foi de “Ludovica” que logo me lembrei quando vi a gatinha no meu sofá no dia em que começamos a viver juntos, em uma casa no alto de uma colina do Rio de Janeiro, um dos poucos lugares que ainda oferecem aos animais domésticos o luxo de algum espaço, mas não sem a desvantagem de ter que lidar com os animais dos vizinhos. Por isso eduquei Ludovica com uma severidade que muitos não aprovariam. Minha forma de amor ao estilo Capitão-Von-Trapp foi necessária para ensinar a Ludovica os limites de seu território com precisão e para que ela seguisse minhas ordens de forma irrefutável para salvar sua própria vida, caso fôssemos viver juntos no espaço que eu tinha a oferecer. Com meus assobios ela aprendeu rapidamente a atender quando chamada e a interromper o que quer que estivesse fazendo. Além disso, Ludovica foi treinada para não fazer barulho à noite, pois eu tinha que dormir bem para poder fazer tudo o que gostávamos. Sim, ela poderia me incomodar o quanto quisesse pedindo mais ração, mas não seria atendida se houvesse apenas um grão em seu prato. No entanto, Ludovica tinha permissão para me interromper para brincar o quanto quisesse e vice-versa. Essas eram as regras. Desnecessário dizer que o encanto dos felinos é sua desgovernabilidade e Ludovica não desapontou, do jeito que costumam fazer aqueles que amamos, sempre aquém das nossas expectativas. Isso gerou alguns conflitos horríveis, incluindo um que levou a outro deslize, sobre o qual ninguém sabe, que me fez subornar a imprensa para nunca contar a história de como uma Ludovica adolescente e assanhada criada na melhor das casas, com as maneiras mais finas da nossa classe fugiu com um bandido para uma festa rave clandestina no bosque, para retornar mais de um mês depois. Viciada em heroína. Anoréxica. Grávida. 

Tínhamos planejado usar chapéus e óculos escuros ao entrarmos na clínica de aborto, para o caso de haver alguém que pudesse nos reconhecer. Felizmente não foi necessário, porque Ludovica teve um aborto espontâneo de um único feto. Nós o enterramos no jardim à noite. Ninguém ficou sabendo. Nosso status na sociedade foi preservado. Há muito mais nessa história, mas ela será contada nas Memórias Póstumas de Ludovica, que infelizmente não tardarão muito mais.

– Eu não teria tanta certeza! – disse uma amiga. – Estou começando a achar que a Ludovica vai enterrar você!

– Bem, às vezes ela cavuca a terra do parque com aquele sorriso cínico no rosto.

Tenho orgulho de dizer que o ocaso de Ludovica está indo bem, pois a vejo se beneficiando de toda a disciplina no final da vida, mas recentemente houve alguns desafios. Os gatos odeiam mudar de casa e Ludovica fez isso duas vezes, já idosa, nos últimos anos. A primeira foi ladeira abaixo, para um apartamento, quando nossa vizinhança se tornou impraticável por muitos motivos fora do meu controle. Apesar da vista, ela nunca gostou do apartamento; entediada, foi dormir por três anos. Então veio a pandemia, e eu me juntei a ela no confinamento por mais um ano no apartamento, olhando para o mundo através da segurança da rede da janela. A pandemia não deixou ninguém sair ileso, e comecei a refletir sobre o que uma vida de cativeiro significa de muitas maneiras. Inclusive me questionei se havia feito, de fato, um favor ao salvar Ludovica das ruas, já que o egoísmo pode ser encontrado à espreita atrás dos atos mais generosos de bondade. A pandemia me fez ver o espectro da crueldade de maneiras que nunca havia imaginado.

Por exemplo, como corredores e cães não se dão bem, não pude deixar de notar o número crescente de cães vadios nas ruas de Santa Teresa enquanto aprendia a correr de máscara. As pessoas estão abandonando seus cachorros, eu finalmente percebi. Então observei as mulheres que cuidam dos gatos fazendo horas extras no parque para alimentar os animais abandonados. Todo mundo já havia percebido como a população de sem-teto tinha dobrado no Rio de Janeiro, o que já era grave antes mesmo da chegada do vírus. Comecei a fazer doações para pessoas e animais e para as pessoas manterem seus animais o que nunca tinha estado no meu radar. Minha reflexão foi além: os veganos não deveriam ter animais de estimação, pensei, embora eu não seja vegano. E a vacina será testada em animais, refleti. Lágrimas brotavam nos meus olhos todos os dias quando colocava uma banana e água para os pássaros no parapeito da minha janela, guarnecida por uma rede de segurança.

– Bas!, exclamei, ‘chega’ em híndi, desabando para sentar no chão. Vou nos tirar daqui, Ludovica! Você vai morrer com dignidade. Sob o sol e as estrelas como um gato!”. Chutei uma almofada com irritação, antes de juntar as mãos numa promessa terrível: – Não vamos ficar aqui. É o Senhor  quem vai nos tirar daqui. Por favor, ajude-me a fazer o meu melhor para ajudar aqueles que não podem fazer escolhas.”

Todas as ações, incluindo orações, estão interminavelmente ligadas a outras ações. Em apenas alguns meses, Ludovica se viu morando numa casa em uma ilha. A alegria com que ela passeou pelo pátio no primeiro dia me fez suspeitar que ela estava pensando que havia retornado ao seu palácio original, um lugar de lógica notavelmente semelhante de varanda e jardim. Mas foi uma mudança, mesmo assim, e interrompeu a rotina de uma velha senhora constipada com rins prejudicados, o que a fez sofrer algumas vezes no veterinário, um veterinário que compreendia por que eu não fazia o que recomenda a literatura, submetê-la a internação para hidratação subcutânea e depois administração de medicamentos orais diários – Para ganhar, quem sabe, seis meses? imaginou o veterinário.

– Não, não, não, doutor. Ela é muito orgulhosa e não vou torturá-la no final da vida. Além disso, olhe para ela: ela está bem – respondi. Foi quando o veterinário me disse para continuar o que quer que estivéssemos fazendo, porque o normal seria que ela sentisse muita dor ou já estivesse morta.

Ludovica e eu piscamos um para o outro, porque sabíamos qual era a mágica.

Eu tinha decidido ajudar Ludovica da única maneira que conhecia. Quando abri o portão da frente, equilibrando uma caneca de café em uma das mãos e Ludovica na outra, ela percebeu que estava indo comigo para o parque e se encolheu, pois sempre tinha sentido medo de sair do seu espaço e só se aventurava em áreas externas da casa quando eu estava por perto. Ludovica estava fascinada, mas nervosa, ao ser carregada para o parque aberto às 5h30 da manhã para ver o nascer do sol sobre a água. Quando a coloquei na grama junto à beira da água ela mal podia acreditar.

—Anda!

—Não!

—Ludovica, estou dizendo para você andar agora!”

—Não!

Ela sempre diz não, mas faz o que eu digo, porque o seu amor e o medo de mim são uma coisa só. Eu sabia que ela localizaria a casa do outro lado do parque, mesmo com os olhos ligeiramente turvos, e seguiria direto para o portão. Caminhamos lado a lado enquanto eu bebia meu café e ficava de olho nos cachorros que andavam pelo parque.

Pensei que havia escapado de algumas das imagens mais feias de crueldade quando deixei a cidade, mas rapidamente percebi que não. A situação dos cães é confusa na ilha. Tem gente que simplesmente abre seu portão pela manhã e permite que seus cães circulem livremente, o que é conveniente para pessoas preguiçosas que não querem acompanhar nem limpar a sujeira de seus animais. Então percebi algo mais sinistro: de vez em quando eu encontrava cães vagando com um pânico familiar, levados para a ilha apenas para serem abandonados por pessoas que são coisa muito, muito pior que preguiçosas. Os vizinhos confirmaram minhas suspeitas e também relataram que o mesmo acontecia com os gatos, muitos jogados para a famosa Mulher Gato, cuja casa faz feder uma rua inteira com brutamontes barulhentos e caolhos que causam terror à noite. Por coincidência, li um artigo em um jornal local sobre os pescadores que tinham salvado uma ninhada de gatinhos que haviam sido atirados da ponte Rio-Niterói em um saco. Comovente foi a indignação dos pescadores, que matam animais todos os dias, referindo-se ao horror da cena e à “crueldade do homem”.

No parque Ludovica fazia algumas paradas ao longo do caminho para mastigar grama ou para absorver a passagem de uma bicicleta, o lagarto correndo pelas folhas secas, os pássaros tomando banho de poeira e os cheiros que não conseguíamos detectar, até que eu a segurei novamente quando ela chegou ao portão. – Não! ela gritou. Ludovica já sabia o que eu ia fazer. Eu a devolvi ao parque, mas em outra direção. Ela estava cansada; não tinha forças, mas foi indo lentamente. Eu vi suas expressões enquanto ela exercitava a mente de uma maneira que não fazia havia anos, navegando em território desconhecido. Ao entrar em casa, ela bebeu toda a água que o médico havia prescrito e mais um pouco. – Hummm, eu sorri, –Eu ainda vou consertar você, sua gata estúpida!”

No dia seguinte ela deu três voltas, no outro deu quatro. Sem eu ter que acordá-la ela começou a se levantar sozinha de seus longos cochilos para fazer xixi e beber ainda mais água. Finalmente começou a comer mais. Percebi melhorias cognitivas. E ela começou a me visitar no meio da manhã e à noite, como costumava fazer. Então começamos a intensificar os treinos.

—Pula!

—Não!

—Estou dizendo para pular!

Ela saltou do galho baixo de uma árvore. Em poucos dias, saltou de um galho mais alto, e depois de um ainda mais alto. Bati minha mão no banco do parque em sinal para ela pular, então encontrei um toco de árvore mais alto. Depois de um mês de atletismo, ela está caminhando quase um quilômetro todos os dias, e agora eu a seguro logo abaixo de seus poleiros nas árvores, apoiando-a ligeiramente para se equilibrar, forçando-a a se levantar e fazer um esforço muscular muito mais difícil.

“Yoga!” eu disse, respondendo às perguntas da imprensa, que queria saber o que havia acontecido com Ludovica, cuja melhora nos últimos meses havia se tornado tão perceptível, justamente quando os paparazzi pensavam que ela estava cantando para subir, uma decadência só.

Bem, na verdade, ela está cantando para subir; mas não estamos todos?

Ter que cuidar de um animal idoso era algo que eu não imaginava quando adotei Ludovica há quase duas décadas, muito menos pensava que um dia teríamos que nos despedir. Essa pode ser a ignorância básica não apenas da maioria dos donos de animais de estimação, mas também daqueles que aceitam outra pessoa em suas vidas, para depois abandoná-la quando a conveniência da paixão termina, e nunca descobrem o amor. Apesar da opacidade da vida alheia, acho que era óbvio que a paixão tinha acabado havia muito tempo entre o casal diplomata, e talvez até mesmo entre eles e sua filha, que não era mais o filhotinho brincalhão. Eu até me arriscaria a dizer que eles não pensavam muito em suas despedidas futuras, considerando o tratamento que davam uns aos outros (e às outras pessoas!). Mas será que eles descobriram o amor?

Espero que sim. Apesar de sua peculiaridade, havia aquela inexplicável coesão que só a família proporciona. Não é diferente da ligação entre os humanos e seus animais de estimação, aquela lealdade inabalável muitas vezes citada por aqueles que “preferem os animais à maioria das pessoas”. Nos elogios a seus animais de estimação, muitas vezes professam como seus animais “lhes ensinaram sobre o amor”. Eu acredito neles: especialmente em um mundo onde pessoas abandonam pessoas como se descartassem frutas estragadas, os cães em particular são fáceis de amar e podem ser de fato o melhor dos professores. Eu questiono, no entanto, se seus animais podem de fato proporcionar conflito suficiente, atrito suficiente, para que eles realmente descubram o amor.

De fato, eu tinha uma vizinha que parecia empenhada em provar que eu estava errado: a mulher rechonchuda de cabelos grisalhos encaracolados e óculos de lentes grossas mantinha uma altercação incessante com seu forte e feliz terrier de pelos igualmente encaracolados; o cachorro a arrastava três vezes por dia, enquanto ela berrava, subindo e descendo a rua, que ele nunca a ouvia, que fazia tudo errado, que a desrespeitava, que quantas vezes ela havia dito a ele para não fazer isso e aquilo.

Eu diria que o terrier estava cagando e andando para aquela megera. Estava feliz da vida!

Seu desfile barulhento era um vexame diário muito maior do que, digamos, um homem caminhando pacificamente ao lado de um gato solto, mas tenho certeza de que ambas as cenas são compostas na única linguagem que o amor conhece, uma que não emprega palavras. O cuidado para com o outro é feito com ações; não há como escapar do trabalho do amor feito pelas mãos e pelo corpo. É por isso que digo que Ludovica me ensinou tanto sobre yoga, a sabedoria que começa com uma atenção incomum ao que se move e ao que é imutável, ou seja, aquilo que muda e aquilo que deve ser aceito não só em si mesmo, mas nos outros que é a maturidade que vem do aproveitamento das únicas ferramentas à disposição: a mente e o corpo. É por isso que me levanto ainda mais cedo hoje em dia para tirar meus rituais matinais do caminho e acomodar os novos para Ludovica, a rotina que criei para fazer as coisas com as minhas próprias mãos quando a medicina não tem mais soluções viáveis ​​para minha gata idosa. Tu te tornas eternamente responsável por tudo aquilo que cativas, penso, lembrando-me das palavras da Raposa para o Pequeno Príncipe no clássico de Saint-Exupéry, quando conduzo Ludovica até o parque todas as manhãs. Percebi que não existe afeto sem disciplina, assim como não existe disciplina sem afeto. São os dois lados da moeda do amor. 

Mesmo que seja apenas uma semente, sempre há egoísmo nos atos de bondade. Ao escolher a minha no solo dos rituais de cuidado com Ludovica, fica claro para mim que quero o consolo de saber que fiz o meu melhor, pois o contrário seria insuportável. Eu faria qualquer coisa para me livrar dessa agonia. É nesse conhecimento que as linhas entre o captor e o cativo se dissolvem, ao cuidar de minhas flores ou da minha couve, da minha gata, dos visitantes da minha casa, do meu trabalho e família: fazer sempre o melhor é encontrar a liberdade no cativeiro. Isso é yoga.

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A native of Chicago, Ricky Toledano has lived in Rio de Janeiro, Brazil for over twenty years as a writer, translator and teacher. [a]multipicity is multi-lingual collection of reflections through the humanities.

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