Precisamos falar sobre UMAMI / We need to talk about UMAMI

“Só você mesmo, Ricky!” Riu um amigo meu, um daqueles engenheiros calmos, práticos e racionais, nada perturbado pelos gostos e aversões próprios ou alheios. Tudo está bom para ele.  Fato que faz difícil entender como passou a vida sem comer nada de verde até chegar à minha mesa, onde, um dia muitos anos atrás, o constrangimento ia ser tão grande se não experimentasse os meus preparos vegetais que ele resolveu engolir aquilo que jurou que jamais comeria.

Ao mesmo tempo, chegou à minha mesa um amigo cuja personalidade é completamente oposta à do outro. Agitado e competitivo, ele critica tudo que eu faço, embora alegremente. Apesar do nome da profissão, nunca conheci um economista que não fosse guloso: este come com vontade tudo que preparo, mas ele é um daqueles sempre vão achar um erro ou alguma coisa faltando — e não perdoa a falta de carne na minha mesa. A resposta dele de “Pois é”, depois do elogio do nosso amigo para minha comida, foi a maneira dele dizer que só eu mesmo para fazê-lo gostar de comida vegetariana, enquanto o primeiro disse que era para fazê-lo gostar de vegetais.

Virou uma tradição entre os três amigos: nós nos reunimos na minha casa para um almoço de sábado uma ou duas vezes durante o inverno. Eles trazem os vinhos finos para minha mesa, farta de taças e muitos pratinhos com comidas representando todos os sabores possíveis, para que os competidores possam brincar de sommelier antes de começarmos a resolver todos os problemas do mundo.

Durante esta nossa tradição anual, inevitavelmente surge no papo a questão do vegetarianismo, mas nunca por iniciativa minha. Primeiro porque simplesmente acho que é tarde demais discutir este assunto na hora de comer. Segundo porque acho inadequado passar sermões quando estou recebendo pessoas em casa. Terceiro porque qualquer tentativa de impor hábitos e valores aos outros com opiniões não solicitadas costuma ter o efeito contrário. Mais estratégico é me posicionar como um exemplo sereno e observado à vontade, para poder penetrar no pensamento do outro sem conflitos.  Foi no último almoço, então, que vi o fruto da observação: o engenheiro confessou que ele está tentando uma vida vegetariana. Eu e meu outro amigo ficamos estupefatos, ele quase cuspiu e ficou engasgado com o vinho.

Lembrando que era o mesmo rapaz que só comia carne, frango, arroz, batata e feijão — o meu amigo cuja mãe sempre me abraça com muito carinho e gratidão por fazer o filho dela comer alface — eu fiquei muito feliz. Ao mesmo tempo comecei a preocupar-me, porque já vi várias tentativas de vegetarianismo serem frustradas por diversos motivos, mas principalmente pela descoberta de que não basta deixar de comer certas coisas: é necessário começar a comer outros alimentos, fato que requer um pouco de conhecimento e organização que esse meu amigo não tem.

Depois da confissão, me aprontei para apoiar e defender o meu amigo da retaliação do outro amigo ácido, mas também tive outra uma grande surpresa quando ele falou: “Eu também estou diminuindo a carne”. Agora fui eu quem engasgou e quase cuspiu.

Os dois são pessoas extremamente inteligentes e eu não precisava desdobrar a lógica por trás do vegetarianismo. Pode ser que eles sejam até mais cientes do que eu sobre a grande e conclusiva lista de impactos da produção e consumo de animais na saúde e no meio-ambiente. Não era necessário explicar a um engenheiro e um economista o balanço ridículo do custo-benefício energético de se investir água, terra, químicas, maquinaria e petróleo para produzir, conservar, transportar e consumir animais mortos, que mal conseguem ser uma fonte terciária da primária: o sol.

A fonte secundária já estava mais do que presente na mesa na forma de vários pratos vegetarianos — menos os queijos, que também têm um custo-benefício bem duvidoso.

Todo mundo sabe de onde vêm e como são feitos os bifes, frangos e linguiças saborosos, mas até o mais perspicaz resolve ignorar os fatos para acomodar seus gostos. Então, se a mera inteligência pudesse acorrentar nossos gostos e aversões, esses meus amigos estariam entre os mais astutos. Mas quem me dera escolher aquilo que consumimos fosse só uma simples questão de raciocínio. Este assunto e toda a vida seriam fáceis.

Finalmente solicitado, expliquei que minha escolha de não comer carne era, sim, baseada numa lógica, mas também numa ética que não é mera crença. É firmemente fundamentada na ética de não fazer com os outros o que não gostaria que fizessem comigo.  E uma vez que os olhos se abrem para essa nossa hipocrisia, começa um caminho que não tem muito retorno.

Ignorar os fatos para acomodar gostos é a definição de hipocrisia. É do ser humano, se aplica a muitas outras esferas e causa muitos, muitos conflitos.

“Mas relaxa, eu também sou hipócrita”, falei antes de um gole de vinho e um pedaço de queijo, descontraindo o papo para não virar sermão.

“Você não sente vontade nenhuma de comer carne, não, Ricky?” Perguntaram-me.

“São muitos, muitos anos já. Eu simplesmente não reconheço comida naquilo. É como um cachorro não confundir a ração dele com aipo. Mas nem sempre foi assim, foi um processo no qual você cai, levanta, tenta de novo. Também, diz-se que a vida se alimenta de vidas em um ciclo eterno de criação e destruição. Nem a vida de um vegano está isenta disso, a vida dele necessita da destruição de outras. Acho que o negócio é escolher o melhor possível em cada momento.”

“Aí é que tá,” interrompeu o vegetariano aspirante, “eu não tenho essa comida vegetariana boa ao meu alcance. Eu não sinto falta nenhuma de carne comendo aqui!”

Sorri. Foi o momento da vingança para mim, onde podia me manifestar diante meus amigos queridos, muito inteligentes e competitivos.  Já haviam me ensinado muita coisa sobre construção civil e negócios — até sobre vinho — e agora era a minha vez.

“Então, seus burros, escutem aqui…”

Apontando para cada prato, discorri sobre a lógica de especiarias e ervas para realçar e contrabalançar os ingredientes, e expliquei que não era coincidência que até eles exigissem os meus cogumelos e aspargos grelhados, os tomates ao forno marinados com azeite e alecrim, as favas grandes com limão e cominho, o alho caramelizado e as sementes torradas na salada verde. Expliquei-lhes: “É que vocês gostam muito de umami“.

U o quê?”

“Ele tá falando da sua mami!”

“Tá nada! Sabe o que eu faço com ele!”

Umami!” gritei. “É um dos cinco sabores: doce, salgado, azedo, amargo e umami — o gosto dos glutamatos, os aminoácidos presentes em alimentos ricos em proteínas.”

“Ele tá falando português?”

“É o seguinte,” continuei, “a sopinha que vocês gostam, que leva as especiarias indianas? O condimento segue um conhecimento milenar de que os sabores todos devem ser despertados no paladar de cada refeição. Senão, cria-se um desejo pela insatisfação do paladar. A falta de um sabor — ou um sabor sobrecarregado — nos dará uma sensação de que alguma coisa está incompleta, deixando nascer outro desejo. Nossa comida ocidental usa muito sal e gordura; não é por acaso que temos a sobremesa. Nas tradições orientais, a refeição normalmente leva alguma coisa meio adocicada; normalmente a pessoa não deseja sobremesa depois da comida. E até na comida vegetariana, há como satisfazer aquela necessidade do sabor de proteína. Aqui na mesa estou respeitando a tradição de vinhos e queijos, mas acrescentei pratos de vegetais que tem muito umami, como os cogumelos, por exemplo, ou botei condimentos como cominho, que realça a proteína de feijões.”

Apontando para as berinjelas, continuei: “Grelhar ou torrar os alimentos também é uma maneira de concentrar o sabor para vocês se sentirem satisfeitos.”

“Você está chamando a gente de insatisfeitos?”

“Talvez. Mas continuo achando que ele tá falando da sua mami!”

“Umami!” Corrigi de novo. “É por isso que vocês não sentem a falta de carne aqui. Agora, se vocês vão tentar ser vegetarianos comendo pizzas e massas, além de ficar insatisfeitos, vocês vão adoecer! Talvez seja melhor vocês irem devagar até se ajustar à dieta. Achei o método de ser vegetariano durante a semana válido, até conseguir alinhar o seu gosto com a lógica, e não deixa de ser uma grande contribuição de você para o planeta e sua própria saúde.”

Dizem que a arte de receber é saber dosar tudo, inclusive a conversa. Mudei de assunto para não entediar e começar logo outras discussões para resolver os problemas do mundo, mas também porque a conversa, como a comida, tem que ter uma lembrança agradável para se querer repetir. Amassar uma conversa demais pode deixá-la amarga. Adociquei-a com notas cômicas. Apimentei-a com franquezas das quais não dá para fugir.   Uma coisa azeda ajuda a dispersar gostos. Sal para que até as coisas aguadas tenham sabor. E umami para deixar saudade e querer revisitar.

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We need to talk about UMAMI

“Only you, Ricky!” Laughed a friend of mine, one of those calm, practical, and rational engineers, too untroubled by his own likes and dislikes to be worried about others. Everything is ok for him. A fact that makes it difficult to understand how he had spent his life refusing to eat anything green until he arrived at my table, where, one day many years ago, the embarrassment would have been so great had he not tried one of my vegetable preparations that he decided to swallow what he’d sworn he never would.

Joining him at my table was another friend, completely the opposite of the first. Agitated and competitive, he criticizes everything I do, albeit cheerfully. Despite the name of the profession, I have known an economist who was not glutinous: he greedily eats everything I prepare, but always finds a mistake or what is missing – and he does not forgive the lack of meat at my table. His response of “Yeah,” after our friend’s compliment of my food was his way of saying only me to have made him like vegetarian food, where the other said it was me who had make him like vegetables.

It became a tradition among three friends: we gathered at my house for a Saturday lunch once or twice during the winter. They bring the fine wines to my table full of glasses and many small plates with food representing all the flavors possible for the competitors to play sommelier before we begin solving all the world’s problems.

In our annual tradition, the issue of vegetarianism inevitably arises, but never from my part: firstly, because I just think the table is far too late for that discussion; secondly, sermons are inelegant when inviting others into the home; thirdly, I have found that any attempt to impose habits and values ​​on others with unsolicited opinions often has the contrary effect. More strategic it is to stand as a quiet example. Allowing others to observe your behavior as much as they’d like begins to penetrate thought without friction.  And it was during our last encounter that I saw the fruit of patient observation: the engineer confessed that he is trying a vegetarian life.

My other friend choked, almost spitting his wine.

Remembering that it was the same guy who only ate meat, chicken, rice, potatoes and beans – my friend whose mother always hugs me with much affection and gratitude for making her son eat lettuce – I was quite happy. At the same time, I began to worry because I have seen several attempts at vegetarianism frustrated for various reasons, not the least of which is the discovery that it is not just a matter of ceasing to eat certain things: it is the start of eating other things, which requires a little knowledge and organization that I know my friend does not have.

After the confession, I got ready to support and defend my friend from the acidic retaliation of the other, when I got an even bigger surprise in the candid confession, “I am also cutting down on meat.”

Now it was me who choked on the wine.

Both are extremely intelligent people for whom I did not need to deploy the logic behind vegetarianism. It might be that they are even more aware than I am of the large and conclusive list of the impacts of animal production and consumption on health and the environment. I could not offer any new information to an engineer and an economist on the ludicrous energy cost-benefit balance sheet of investing water, land, chemicals, machinery, and oil to produce, store, transport, and consume dead animals that are barely a tertiary source of energy from the first: the sun.

The secondary source was already more than present at the table filled with vegetables – minus the cheese, which also has a very dubious cost-benefit.

Everyone knows where and how delicious steaks, chickens and sausages are made, but even the most discerning  somehow decide to ignore the facts in order to accommodate personal tastes. If mere intelligence were enough to rein in our tastes and aversions, these friends of mine would be among the most astute. But who said choosing what one consumes is just a question of reasoning? If so, this and all lives would be easy.

Finally summoned, I explained that my choice not to eat meat was based on more than logic: it is based on ethics that are not mere belief. It is firmly acknowledged in the morality of not doing onto others what we would not have done unto us. And once one’s eyes open to our hypocrisy, there is not much return from that point.

To ignore the facts to accommodate tastes is the definition of hypocrisy, which applies to all human being and can be seen in many other spheres, causing many, many conflicts.

“But relax, I’m a hypocrite in my own ways,” I said before taking a sip of wine and a piece of chesse, relaxing the conversation so it would not become a sermon.

“You really don’t miss eating meat, Ricky?” I was asked.

“It has been many, many years now. I simple do not recognize food in meat. It’s like a dog not confusing his rations with celery. But it was not always like that, it was a process in which you fall, get up and try again. It is said that life feeds on lives in an eternal cycle of creation and destruction. Even the life of a vegan is not exempt from this cycle, it necessitates the destruction of others. It is best to choose as wisely as possible in every moment.”

“Yeah, but…” interrupted the aspiring vegetarian, “I do not have this good vegetarian food within reach. And funny how I do not miss any meat eating here!”

I smiled. It was the moment of vengeance for me where I could manifest myself before my dear friends, so very witty and competitive.  They had taught me a lot about construction and business – even wine – and now it’s my turn to teach them something.

“Ok then, you donkeys, listen up …”

Pointing to each dish, I unfolded the logic of spices and herbs to enhance and counterbalance the ingredients, explaining why it was of no coincidence that they now even demand my grilled mushrooms and asparagus, tomatoes baked with olive oil and rosemary, favas with lemon and cumin, caramelized garlic, and roasted seeds in the green salad. I explained to them: “It’s that you like umami very much.”

U what?”

“He’s talking about your mommy!”

“No, he’s not. He knows what I would do to him!”

“Umami!” I shouted. “It’s one of five flavors: sweet, salty, sour, bitter and umami – the taste of glutamates, the amino acids in protein-rich foods.”

“Is he speaking English?”

“Listen,” I continued, “this soup you like with the light Indian spice that you think goes well with champagne?” The spices follow the logic of an ancient knowledge that says that all the flavors should be awakened on the palate at every meal. The lack of a flavor – or an overloaded flavor – will give us a feeling that something is missing, and another desire will be born. It is not a coincidence that you usually do not want dessert after an Oriental meal, because there is often already  something sweetish in its taste. An even with vegetarian food, there is a way of satisfying the taste of protein. Here on the table, I’ve upheld the tradition of wines and cheeses, but I have added vegetable dishes that have much umami, such as mushrooms, for example, and I have added spices like cumin that enhances the protein in pulses.”

Pointing to the eggplants, I continued “Grilling or roasting the food is also a way to concentrate taste to feel satisfied.”

“Are you calling us frustrated?”

“Maybe. But I still think he’s talking about your mommy!”

“Umami!” I once again corrected him. “That is why you walk away without the feeling that meat was missing. Now, if you are going to try to be vegetarians by eating pizzas and pasta, besides being dissatisfied, you are going to get sick. I find the method of being a weekday vegetarian quite valid until you can align your taste with logic, and it is a way of making a great contribution to the planet and your own health.”

It is said that the art of hosting is knowing how to dose everything, including conversation. I changed the subject so as not to get bored and start our other discussions on saving the world, but also because the conversation, like food, has to be pleasantly remembered if it is to be repeated. Kneading too much talk can make it bitter. I sweeten it with comic notes. I make it spicy with frankness that cannot be ignored. A bit sourness dissipates other tastes. Some salt makes even diluted things taste good.  And umami to make you want to come back.

 

 

Posted by

A native of Chicago, Ricky Toledano has lived in Rio de Janeiro, Brazil for over twenty years as a writer, translator and teacher. [a]multipicity is multi-lingual collection of reflections through the humanities.

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