Peão de Ornamento

por Ricky Toledano

“Um problema—para ser um problema—há de ser solucionado com as mãos. Caso contrário, não é um problema! Não é nada! É só uma besteirinha da mente”, foi o sábio comentário do meu pai, um homem que rasgava madeira com perfeição; misturava cimento; plantava árvores, legumes e verduras; cozinhava, desenhava e pintava com a exatidão de fotografia. Nem a delicadeza da caligrafia ficou fora do alcance do talento embutido nas mãos dele. E foi exatamente dele de quem me lembrei quando passei pelos salões do Centro Cultural da Justiça do Rio de Janeiro, acompanhado por um amigo, Wladimir Alberto Martins, cujos talentos lembram muito os do meu pai, além de ter percorrido história semelhante de migração e pelas artes.

“E aí? Gostou?” lhe perguntei baixinho para não incomodar os outros visitantes da exposição que contemplava obras contemporâneas – bem contemporâneas – com palavras jogadas no chão, uns fios esticados onde foram penduradas partes de textos e fotos rasgadas.

“Achei umas coisas interessantes, mas foi um pouco confuso. Não entendi muito bem.”

Wladimir é até tão educado quanto meu pai, então resolvi liberá-lo: “Eu detesto arte contemporânea. Este tipo de arte não agrega nada para mim.”

“Eu confesso que não me agrada muito, não”, ele falou, olhando para o alto dos salões, achando todos os erros nas molduras, na pintura e nas paredes.

Segui-o nos voos altos que fazia com os olhos pelo pé direito imponente, antes de comentar como eu quase sempre me interesso mais pela arquitetura de tais espaços públicos do que pelas exposições de arte contemporânea que eles hospedam, enquanto ele apontava os detalhes do edifício, uma mistura de estilos arquitetônicos – às vezes até uma bagunçada, segundo o ensinamento dele, por ter uma mescla eclética típica da época, emulando todas as tendências europeias do neoclássico ao rococó ao mesmo tempo. Eu sempre achei o prédio lindo, jamais teria reparado nas falhas todas que ele apontou dentro dos salões. Também me mostrou onde e como corrigiria o lamentável estado das paredes e pintura, conforme a profissão dele como restaurador, uma profissão à qual é dada pouca importância no momento atual, onde não há dinheiro no estado para professores e policiais.

No parapeito de ferro da escada enorme do salão principal, deu-me toda uma aula sobre a arquitetura histórica do Rio de Janeiro, um assunto que sempre me fascinou, já que faz parte de um gosto que tenho para arquitetura antiga, das épocas que priorizaram o belo e a harmonia acima da funcionalidade e economia na construção.

Descendo a escada depois de termos nos entediado da exposição, houve um  momento calmo em que ele aproveitou para melhor adequar a minha queixa ranzinza sobre a exposição: “Na verdade eu já vi muita arte contemporânea de que gostei e muito. Eu acho que você quis dizer que não gosta de arte conceitual.”

Corrigido, parei para refletir no meio daquela escada de mármore flutuante de ferro suntuoso, importado de uma fundição inglesa (que não tinha ferro fundido na época, me ensinou), para contemplar os significados de arte contemporânea e conceitual.

“Não gosto dela nem um pouco!” respondi depois da minha pausa, “E eu acho que você também não.”

“Realmente não é muito a minha praia.”

“Você sabe por quê? lhe perguntei, descendo mais uns degraus. Surpreso pela minha indagação, me olhou perplexo. “É que você sabe resolver problemas com as mãos. Você possui os meios para criar plasticamente, visualmente. Se você tivesse só conceitos, você ia escrever.”

Agora foi a vez dele de dar uma paradinha de contemplação na escada.

 

Por Halley Pacheco de Oliveira [CC BY-SA 3.0 (https://creativecommons.org/licenses/by-sa/3.0)%5D, da Wikimedia Commons

O momento no qual o Wladimir se deu conta do que é um problema de verdade – e o poder dele de resolvê-lo com as mãos – foi quando parte de um ornamento em relevo se descolou e caiu da fachada que restaurava, de um prédio antigo no que hoje é popularmente chamado o Beco da Sardinha, mas antigamente conhecido como Largo de Santa Rita, parte da Zona Portuária do Rio, uma das áreas mais antigas do Rio de Janeiro.

Caraca, deve ter pensado naquele momento infeliz, E agora?

O maior desafio naquela surpresa não foi como restaurar o brasão antigo, mas quando. Sabia bem como fazê-lo, mas o prazo do contrato de restauração já se esgotava. Encontrava-se na última semana do projeto e, de cara – olhando para o escudo quebrado que prometia incluir até trabalho figurino, já que tinha duas mãos com dedos como se estivessem em movimento, o símbolo de uma antiga ordem católica – sabia que precisava de duas semanas só para refazer aquele ornamento, usando as técnicas certas de fazer um molde de argila, calculando a volumetria e desenhando o relevo fitomórfico do adorno.

Além do mais, deve ter soltado outro Caraca! ao reparar que a peça havia sido feita em gesso.

“Uê? Por quê?” foi a minha pergunta leiga, quando me contou a história.

“Gesso estraga em contato com a água. Já encontrei peças disso de cem anos em outras obras. Como sobreviveram esse tempo todo? Não conheço uma técnica para fazer aquilo. Muito estranho! Nunca entendi aquilo. Até perguntei a um conhecido meu, técnico do IPHAN [Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional] – também não conhecia. Não sei como aquilo dura séculos!”

Embora haver lhe ouvido perfeitamente bem, minha cara delatava minha falta de entendimento. É que se tratava de conhecimento manual – aquele mesmo que cozinha ou constrói e resolve problemas que o meu pai chamava os verdadeiros – e tal conhecimento foge facilmente das palavras. Tanto que meu pai se irritava com a sua própria deficiência em se expressar e delegar. Dificilmente se encontra na mesma pessoa uma habilidade igual de fazer coisas e de descrever coisas. Não é à toa que muitas vezes os gênios são conhecidos pelo temperamento forte. Os mais equilibrados desses talentos são os professores do mundo, e acredito que o Wladimir seria um bom. Explicou-me, pacientemente, a diferença entre gesso e concreto e as técnicas básicas pelas quais gesso é usado mais para interiores, lugares secos. Não fazia sentido usar gesso para partes exteriores, exposto à chuva. Então, aquele ornamento havia sido impermeabilizado de alguma maneira que desconhecia. Segundo a lógica dele, só poderia ter sido preparado com óleo para impermeabilizá-lo. Mas… como? E que tecnologia foi essa que ficou perdida?

Fiquei imaginando minha massa de pão hogaza, um espanhol que leva semolina e bastante azeite de oliva. Como explicar o ponto da massa? E como e quando adicionar o azeite? Também faz parte de um conhecimento manual e físico que não sei expressar. Toda receita de pão é a mesma: farinha, água, fermento e pitada de sal. Era para ser fácil e não é. Aquilo se abre num leque infinito de possibilidades. Embora algumas receitas sejam mais úteis do que outras na transmissão do conhecimento, ficam meramente conceituais, palavras, até encaminham um indivíduo para um entendimento que é só revelado ao botar as ‘mãos na massa’. Nada substitui a memória na pele: é um aprendizado retido pelos olhos e pelas mãos e não pelas palavras.

E como minha massa de pão, o Wladimir não tinha como expressar o seu entendimento de argamassa de cimento. Isso porque era, efetivamente, um subentendimento. A observação dele foi tão trabalhada, repetida e repetida, errando muito nas massas utilizadas na construção e restauração até os pontos certos se revelarem para virar hábitos tácitos. E é só quando o conhecimento chega a esse nível que se pode desfazer as regras:

“Fiz o ornamento em três dias” confessou o Wladimir, com um o sorriso meigo de criança cuja travessura deu certo.

Foi um instinto que teve analisando o pedaço quebrado. Ele sentia na pele que podia refazer o brasão diretamente no cimento, ultrapassando todo procedimento de modelagem com argila, embora correndo um certo risco.

Minha cara de desentendido cobrou mais explicações desse arrojo: “É que argila é maleável, cimento não. Uma vez colocada, não se tem muito tempo para manipulá-lo.”

Sauté, pensei, buscando um paralelo para minhas mãos. Tem-se que ser rápido e atento. Não se pode fazê-lo desconcentrado ou esquecido, deixando o fogão para fazer outra coisa.

“Então fiz um trabalho na mão, meio escultor, meio que lapidando” tentou articular palavras para aquilo que só ele subentende.

Quebrou as regras normais e deu certo. Entregou a fachada no prazo prometido, porque, afinal, não adianta ser bom profissional sem ter palavra.

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Lembrei-me bem de quando meu pai confessou que soube que eu quebrei regras. Eu matava aula na escola. Nunca imaginei que ele fosse me pegar em flagrante quando passei pela janela do restaurante onde ele se sentava com os clientes no centro da cidade, longe de onde eu deveria estar.

Com grande risada na conversa já entre adultos, eu lhe perguntei por que nunca havia falado nada, por que não havia me punido.

“Você sempre foi um bom garoto e excelente aluno. Se a escola tivesse reclamado, eu iria fazer meu devido papel e botar você de castigo. Mas eu entendi que você tinha tudo sob controle. Chega uma hora na vida que se tem que saber como e quando fugir às regras – senão a gente não faz nada nesta vida.”

Refletindo hoje, reconheço a sabedoria nas palavras dele, mas acrescento que eu acho que o meu pai quis dizer que quebrar bem as regras só vale a partir da comprovação de uma certa disciplina – e disciplina é uma coisa que não tem como ser fingida. Ou você a pratica ou não a pratica. Ou você sabe fazer alguma coisa ou não sabe. A disciplina é comprovada efetivamente só; jamais conceitualmente.

Onde fui parar naquele dia o meu pai nunca ficou sabendo e também nunca perguntou. Talvez já percebesse que ia ao Art Institute of Chicago pela direção em que eu andava com amigos, passando pela vitrine do restaurante onde ele sentava, exatamente no dia, ainda jovem, quando apenas comecei a contemplar o que era disciplina, ao apreciar uma tripa inteira dos desenhos-rascunhos da sequência do Minotauro do Picasso. Um ao lado do outro num paredão, fui olhando cada um, reparando o que foi repetido e o que mudou para cada um. Eu era um rapaz de dezessete anos de idade, parado e boquiaberto, pasmado por aquele artista que até então era um pintor abstrato para mim. Aliás, tinha acabado de passar por aquela praça do centro onde tem uma estátua enorme dele, tudo de ferro, um retrato abstrato de uma mulher. Nunca ia imaginar que ilustrava com tanta precisão.  Vi nitidamente como repetiu e repetiu e repetiu aquele tema, até sentir firmeza e sintonia nos olhos e na mão que executava aquilo que queria desenhar.  Depois refleti como o grande mestre improvisou, quebrando as regras antigas de belas artes para criar seu próprio estilo, que incluía aquela estátua enorme de ferro numa praça do centro da minha cidade natal, bem perto do restaurante onde sentava o meu pai, o testemunho de como o filho dele improvisava o seu dia quando as regras já não lhe convinham.

Eu sempre tinha passado por aquela estátua achando que era um cavalo!

 

 

J. Crocker [Attribution or Public domain], via Wikimedia Commons

A improvisação em cimento do Wladimir tampouco veio à toa. Ainda rapaz, se destacou em um cursinho de arte. A professora viu o óbvio e lhe disse que levava “todo jeito para pintar”. Nunca esqueceu o elogio, mas resolveu guardá-lo para uma hora menos agitada. O sucesso dele nos trabalhos como garçom nos bares, restaurantes e buffets de sua cidade, Araraquara, São Paulo, só aumentava, como só podia ser para um jovem bonito, educado e responsável. Ademais, o trabalho dele foi levado a sério, como meio de realizar as aspirações normais de jovem que quer conquistar e ver o mundo ao redor. Mesmo assim, a memória na pele vazava nas horas calmas: podia observar como pegava um guardanapo de papel e desenhava qualquer coisa no balcão do bar do trabalho. O talento impressionava e seduzia, mesmo quando não era a intenção.

“…Exceto em Fortaleza”, me explicou. Tinha lhe perguntado como havia chegado ao Rio de Janeiro para descobrir a aventura que fez pelo Brasil ao sair de São Paulo. Chegou ao Ceará com 22 anos e a experiência foi “complicada” no nordeste brasileiro. Procurou serviço na praia, nas barracas na areia, no quiosque, hotéis e resorts. Nada deu certo no litoral. “Foi a única vez na minha vida em que não consegui trabalhar direito. Não queriam me empregar.”

Vi suas entrelinhas escritas, mas não consegui lê-las: tamanha educação às vezes atrapalha a comunicação e tive que arrancar a explicação do porquê.

“Me disseram que eram os clientes de lá que não queriam ser servidos por negros, mas acho que não foi bem isso.”

Eles mesmos não queriam negros, completei o pensamento. Depois de um silêncio breve de estupefação, me perguntei, Como? Tentei imaginar a figura lá à beira mar que tinha coragem de lançar aquela meia-desculpa na cara do Wladimir. Poderia ter mentido, não respondido, qualquer coisa! pensei. Rendi-me diante do inacreditável e dei uma gargalhada. É inacreditável como as pessoas perdem tanto sendo racistas! Tamanha burrice é risível! Perder um achado, cara do bem, como o Wladimir?

A COBAL de Botafogo não ia dar esse mole de jeito nenhum. A época na qual o reduto carioca ficou na moda coincidiu com a chegada do Wladimir ao Rio de Janeiro, cidade infame pela carência de pessoas que não sabem sequer prestar serviço. Apesar de ter chegado de mala e cuia do Nordeste, não demorou nem uma semana para ele achar onde queriam bons profissionais. A simpatia e confiabilidade dele havia conquistado de novo.

Na chegada ao coração do Brasil, encontrou os nativos solidários, guiando-o à vontade desde que ele pulou do ônibus na Rodoviária Novo Rio até o Centro com as dicas rápidas e fartas, típicas do carioca. Pediu para ser deixado no meio de tudo, e foi na Cinelândia onde desceu do transporte público para dar de cara com a beleza do Teatro Municipal. Um mapa da cidade foi comprado ali mesmo na banca de jornal, e foi com assim que ele conseguiu se localizar para encontrar o “hotel de solteiros” na Praça Tiradentes – e logo depois um outro pensionato em Copacabana, onde o banheiro já não era aquele que ficava no final do corredor, um lugar úmido e pouco ventilado, com “azulejos cor de ferrugem que um dia já haviam sido brancos”, segundo o Wladimir, que destaca as cores com a exatidão esperada de um restaurador. Sem vontade de voltar para aquele quarto de 3m² – onde cabia a cama com um colchão que parecia uma canoa, as pontas levantadas e o meio afundado, com o ventilador comum engenhosamente preso à parede com arame e prego, fazendo um barulho horrível quando ligado – aproveitou um dia inteiro para ver a Cidade Maravilhosa, andando do Centro até Copacabana, onde teve a sorte de encontrar um pensionato mais adequado e com vaga. No caminho de volta ao Centro, ele esbarrou com a alegria da sua primeira roda de samba ao chegar à Glória. Foi ali onde parou para beber duas latas de cerveja antes de encarar o hotel de solteiros na Praça Tiradentes, porque naquele lugar “só dava para dormir bêbado”.

No dia seguinte já estava no pensionato em Copacabana, poucos dias depois já trabalhava na COBAL, e dois anos depois já estava ganhando bem como gerente do restaurante onde trabalhava – mas não parou ali.

Com a firmeza de trabalho, já tinha voltado a desenhar nos guardanapos e levava o seu caderno onde fazia rascunhos e desenhos, onde mantinha a coletânea de suas ideias. Uma vida estável lhe permitiu voltar a procurar um curso de arte, como tinha feito mais de dez anos antes, mas a sua pesquisa sempre desembocava na EBA – a Escola de Belas Artes da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Uê? Por que não? Pensou. Não deu outra: mas não tinha noção do que era faculdade.

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fotos e desenhos por Wladimir Alberto Martins

Depois de dois anos de curso quase desistiu. Tinha tomado a decisão difícil de deixar o emprego para se dedicar aos estudos, sustentando-se com freelances à noite entre bares e restaurantes badalados de Botafogo, Leblon, Urca e na Lapa, onde já morava.  Foi quando a ficha caiu de que “universidade não é para pobre: você não tem mensalidade; você tem gastos!” O Wladimir me contou dos dias de dinheiro contado na mão que serviria para pagar o transporte ou para comer, mas não para as duas coisas. “Detalhe: se faculdade não é para pobre, Belas Artes, então?”. Cruzou os braços para pontuar a explicação sobre os custos incessantes de tintas, papel, telas, o todos os materiais de arte que não são aqueles que se usa para começar um hobby qualquer.

Mas ainda não tinha começado o pior do melhor.

Foi durante a última restauração da Sala Cecília Meirelles en 2011 que um colega de sala chamou a atenção do Wladimir: “Você trabalha bem com as mãos, fazendo modelagem: leve um currículo lá!”

Encaminhado para a coordenação da recuperação dos ornamentos, a primeira olhada assustava. A faculdade não ensinava nada daquilo: ornamentos, mísulas, capitéis – tudo com argamassa de cal. Espiava como se fazia os moldes no atelier só de formas, mas não compreendia bem como funcionava moldes de silicone líquido. “Acho que dá pra fazer”, respondia, e na primeira tentativa já saía. Tinham defeitos, mas foi melhorando rapidamente, já que era o campo nato dele requerer sensibilidade. “O trabalho vai te dizer o que ele quer; os procedimentos técnicos não são as mesmas coisas na prática. Tirar uma forma de silicone, tudo bem, mas fazer aquilo no negativo lá no alto? Como vou puxar? Os dados técnicos não ensinam. Fui fazendo minha mistura com pó de vidro, uma massa mais grossa, com pó de serragem, botei gesso – ninguém usa aquilo – é uma receita minha.”

Com o estágio de restauro pela manhã, a faculdade à tarde e o bico de garçom à noite, o Wladimir dormia apenas quatro horas diárias. Aguentou esta agenda um tempo o máximo possível, até tomar a decisão ainda mais difícil de deixar de vez de trabalhar nos restaurantes e investir no aprendizado do restauro. “Minha mãe começou a mandar R$300 para mim todo mês, na época, para me ajudar a terminar a faculdade”. Sorri ao saber do gesto de ternura da mãe dele – mas também para este universo que conspirou a seu favor.

O Wladimir me apresentou a um mundo de restauro, onde viajei na minha mente para vê-lo trabalhar no ano em que trancou a faculdade para aceitar o convite de trabalhar na fachada do Palácio Campo das Princesas, em Recife. Também foi chamado para trabalhos mais simples, como a restauração das colunas e corrimão da Casa de Rui Barbosa, que era mais uma questão de pintura. Contudo, são as fachadas antigas e expostas aos elementos que sempre carecem de atenção. Então, várias vezes o Wladimir ficou pendurado nos andaimes na frente de prédios que fazem parte do patrimônio histórico do Rio de Janeiro, seja o Jockey Club, o Teatro Riachuelo (antigo Cine Palácio) ou o Real Gabinete Português. Foi nesse último que um empreiteiro o viu lá no alto e o chamou para trabalhar numa fachada no SAARA (a Sociedade de Amigos das Adjacências da Rua da Alfândega), os quarteirões de sobrados antigos que compõem o maior mercado ao céu aberto no Rio de Janeiro. O apelido SAARA tem duplo sentido, já que as lojas, tradicionalmente de imigrantes árabes, se juntam, lembrando os labirintos e bazares do oriente. Muitos árabes já se foram, mas os chineses já se responsabilizaram pelas fachadas antigas, onde o Wladimir recupera a 5ª desde 2016.

“Como é trabalhar no andaime, Wladimir?” lhe perguntei de curioso. Não tenho problemas sérios com altura, mas tampouco me imagino nessas dependências flutuantes em cima da calçada.

“Nossa, que alto! Fique lá não!” respondeu, rindo. Depois confessou que o mais interessante foi ver os detalhes de perto e descobrir que os ornamentos todos não eram para ser vistos assim em frente, à distância de dois palmos. “De perto, parece que tem erros, mas na verdade foram feitos e colocados para ser vistos de baixo. O olho fica viciado: lá de baixo olhando para cima parece que tudo está simétrico, retinho, enquadrado, mas na verdade tem montes de ajustes.”

Disse-me que incômodo mesmo é o barulho infernal de obra. Quando todos param de bater e desligam as serras para almoçar, é a hora dele aproveitar a paz para trabalhar sozinho. A volta dos operários sinaliza o horário do almoço para ele, depois daquele momento calmo, no qual podia apreciar os ângulos diferentes e privilegiados da cidade, rabiscando desenhos desde o telhado no caderno que leva com ele para tudo quanto é lugar, sempre preparado para agir naquele momento livre para captar o que é visto dentro ou fora dele.

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Depois da exibição, voltamos a pé para o bairro onde nós dois moramos, passando pela Lapa, um dos redutos mais icônicos dos Rio de Janeiro, uma verdadeira cornucópia de boemia carioca, onde esbarrei com o olhar tímido e veloz de uma mulher indígena, sentada no chão ao lado do mostruário dela, onde estavam espalhados colares, pulseiras e outras bijuterias de miçanga que ela mesma tecia rapidamente e com impecabilidade. Como um todo, o mostruário parecia um tapete persa cheio de cores vibrantes, jogado no chão cinzento e empoeirado.

Em seguida, na mesma calçada, um senhor fazia oratórios divertidos, feitos de reciclagem, e atrás dele um paredão pintado por um dos meus prediletos do bairro – um grande pintor ao meu ver, já que seus autorretratos caricatos comovem toda uma reflexão sobre a vida de rua.

E Lapa é rua.

Olhando para atrás antes de entrar em um bar onde encerraríamos nosso passeio na beira da calçada, espiei de novo aqueles grandes artistas de rua pelos quais acabávamos de passar, refletindo como gostaria de juntá-los com outros numa exposição no mesmo Centro Cultural de onde havíamos acabado de sair.

“Você sabe que antigamente quem fazia essas peças que eu refaço eram os estucadores – escravos. Branco tinha as ideias, mas quem executava, quem pegava a parte braçal de arquitetura era o negro – coisa que não mudou muito, viu?” Wladimir continuou com minha lição de história de arte ao sentarmos, finalmente e confortáveis numa mesa, enquanto o garçom providenciava uma cerveja.  “Ainda temos essas sequelas do passado. Infelizmente, o trabalho manual não é valorizado como o intelectual.”

Poft! foi a tampinha da garrafa, pontuando esta última frase dele. Palavras que são para você nunca esquecer.

Nunca!

Porque compõem um fato intimamente ligado a muita coisa que está errada neste mundo.

“Vou te dar um exemplo: trabalhei numa restauração onde o gesseiro era seu Antônio, um senhor negro, que fazia um excelente trabalho. E eu era o mulato da obra que falava as duas línguas.”

Ram??” indaguei, confuso. Fiquei perdido nesse último detalhe do relato dele.

“É que lá atrás sempre tinha o mulato que falava com a casa grande e os escravos. Hoje em dia, é a administração e os operários. E muitas vezes eu sou aquele mulato, o mestre de obra, entendeu? Um peão, mas eu fazia mais…”

“Um peão de ornamento”, completei, brincando.

“Isso!” Mais claro impossível.

“Então, comuniquei que era só seu Antônio para fazer aquilo, do jeito que queriam, no prazo que queriam, mas a administração de arquitetura queria evitá-lo, já que o banco de horas dele era alto. Daí veio a resposta: ‘De novo? Daqui a pouco o seu Antônio tá ganhando mais do que eu!’”

Ri – não só da infelicidade da gracinha daquela arquiteta, mas pela simplicidade com qual o Wladimir contava as histórias dele com calma, desprovido de rancor.

“Viu? Tem essas sequelas ainda, cara. Tô te falando…”

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Tal observação objetiva e plácida do Wladimir também me lembrava do meu pai, que soltava cada pérola depois de muito tempo parado, trabalhando em silêncio e sem falar. Com todas as desvantagens que o trabalho manual possa ter – além de ser menos valorizado – vem com a grande benção de poder relaxar a mente. E isso porque é ao trabalhar com as mãos que a mente é levada a concentrar-se em um ponto só, como se fosse uma meditação, amenizando as oscilações dos pensamentos e emoções, permitindo, então, uma certa clareza.

Qualquer coisa feita com uma mente agitada, se delata – seja na louça quebrada ao ser lavada, nos pertences perdidos dentro da própria casa, ou até numa mensagem, visual ou escrita, perdida ou até mesmo escondida atrás de uma intelectualidade barulhenta que ofusca, que não conclui nem deixa apreciar o belo.

(É por isso que imploro: se você não tiver alguma prática manual, recomendo muito que você comece o quanto antes, seja o que for, mesmo limpar a sua própria casa, para ver como isso limpa a mente).

“Eis a minha questão com arte conceitual, Wladimir” expliquei, tentando a mesma calma dele em vez de expressar a minha aversão estupidamente, como eu tinha feito uma hora antes no museu.  “Confesso que tenho visto algumas obras de arte conceitual que me levaram a refletir, mas nunca me impressionaram. Fico pensando se não seria melhor para tais artistas procurar a arte de escrever, já que – na maioria das vezes – suas obras já estão tão encostadas de qualquer maneira nas palavras para explicá-las e, aparentemente, tais artistas não possuem uma disciplina visual. Não é não?”

“Talvez. Mas no final das contas, gosto é gosto… e tem muita gente cativada por arte conceitual.

“Falando de gosto: teu pintor favorito?” Sempre quis pergunta-lhe isso, até porque se a disciplina de um indivíduo comunica tanto sobre ele, os gostos talvez expressem mais ainda.

“Cezanne” respondeu sem hesitar, desvendando que gosta da expressão que deixam os quadros do mestre francês: algo rude, grotesco, mas ao mesmo tempo com delicadeza. “É caboclo, sabe? É trabalho no campo, mas com sensibilidade; frutas brutas, mas pensadas. Uma outra inspiração seria o grande Da Vinci, simplesmente me impressiona: até os estudos dele já são uma obra. Muitas vezes o estudo é até mais uma obra que o final…”

“…o processo já é um trabalho” completei, antes de lançar um sorrisinho irônico ao lembra-me da sequência das obras do Picasso.

Ele achou que leu o meu pensamento.

“Ah, tá. Você acha que arte conceitual não passa pelo processo, então?” perguntou-me, no intuito de confirmar o que viu passar na minha cabeça. Como estudado em artes plásticas, conhecia muito bem o desacerto de muitos ao julgar arte pós-moderna. Fez o advogado do diabo, desdobrando porque não se aplicam os argumentos fúteis de eu-podia-ter-feito-aquilo ou uma-criança-faz-acolá para criticar arte conceitual, senão pelo fato simples do crítico ‘não ter feito aquilo’, nem de perceber que a obra conceitual às vezes requer mais habilidades do que se imaginava.

Mesmo assim, sou da opinião de que qualquer conceito expressado sem técnica vai dificilmente convencer, se é que consegue se comunicar, seja por palavras ou visualmente. Com a chegada da Modernidade no século XIX, época na qual o olhar, no ocidente, virou-se para dentro, em vez que seguir as regras antigas de como retratar o belo no mundo ao redor, artistas visuais e literários começaram a contar não somente o que viam, mas o que sentiam dentro de si. Mas todos aqueles grandes artistas – do mestre espanhol Goya no século XIX, com seus retratos de pesadelos e política, até o Kandinsky, Mondrian e Picasso, artistas que se esticaram até os limites da arte no século XX, desconstruindo o visual até os elementos mais básicos – demostraram um processo. Foi muita habilidade, muita disciplina a mostra de onde partir para pesquisar e improvisar. Depois daquela grande passagem na história da arte, o Pós-modernismo desembocou no próprio questionamento do que é a beleza e a arte em si, mas aquela indefinição é apreciada por mim historicamente, não esteticamente.

“Depois do Marcel Duchamp e Rothko, o gênio naquela linha de pesquisa fica meio remoído e sem graça para mim. Suspeito que vários dos muitos artistas conceituais seguintes ficam se escondendo nos escombros daquela desconstrução da arte, porque é mais fácil criar sem manipular os elementos de ponto, linha, forma, cor, valor, textura, e espaço com as mãos. Ficam com conceitos, intelectualizados com um monte de –ismos para qualificá-las, porém muito encostados nas palavras que muitas vezes tampouco dizem muita coisa. Não se dedicando a uma linguagem nem outra, deixam uma margem grande para falhar na comunicação…” Ainda brinquei: “Não como você, que faz bem falando as duas línguas!”

O garçom alegre e perspicaz já trouxe outra cerveja do jeito nativo, sem termos pedido. Vi o poeta ambulante na rua, tentando vender o seu livreto.

“Uma língua requer uma certa prática, né?” respondeu o Wladimir.

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O que meu pai talvez nunca se inteirado era o nível da minha prática – ou subversão, quer dizer. O meu irmão quase gêmeo nasceu com todo o talento artístico do meu pai. Era todo um prodígio, nato. Desenhava hiper-realista ainda garoto e eu não tinha como competir com aquilo, embora também tenha nascido com uma certa habilidade acima da média para artes plásticas. Eu manipulava cor mais ou menos; o meu irmão não se interessava muito por cores; o poder dele com o lápis era sem esforço e imbatível. O meu pai não tinha nada a ensinar a ele – me dava uma raiva!

Engraçado foi que esse meu irmão craque tinha uma letra horrível, ilegível. Então, além da minha curiosidade por gastronomia, o meu pai também observou como eu já media o espaço de uma linha de palavras naturalmente e desenhava as letras bem medidas. Assim, ele começou a me ensinar como ele fazia a letragem e caligrafia para os seus clientes, na época antes do computador aposentar tais aptidões. E foi justamente naquele tempo antes da explosão tecnológica de comunicação que aquelas técnicas manuais que ele me ensinava me serviram muito – mas muito bem.

Até hoje, dificilmente existe uma assinatura que eu não consiga copiar. Vejo nitidamente onde começa toda letra e onde termina, se for puxado por canhoto ou empurrado por destro. Vejo o padrão de espaço entre letras. Sei no olho exatamente quanto de espaço preciso para encaixar uma linha de palavras.

O meu pai ria ao lhe mostrar como fazia a assinatura dele mesmo, a da minha mãe, e até aquele garrancho ridículo do meu irmão. Iguaizinhos! Mas provavelmente ele não ia achar nenhuma graça na carta dele à diretora da escola, desculpando minha ausência.

Se tivesse tido coragem de utilizar a assinatura daquela mesma diretora – uma letra curiosa e rebuscada que eu praticava numa folha de papel até fluir lindamente perfeita – eu ia partir para outro nível de criminalidade. Nunca tive coragem. Encerrei mina vida de falsificador ali mesmo e nunca mais usei aquela habilidade, até um dia, uns 25 anos depois, quando fiz um curso de alfabetização em sânscrito. As primeiras aulas pareciam um curso de desenho, a professora mostrando como arrastar a caneta para escrever cada letra como no jardim de infância. Era só bater o olho nas letras que via nenhum desafio. Difícil era lê-lo, coisa que ainda faço pausadamente em voz alta como criança no jardim de infância.

Graças às minhas notas ótimas na escola, aquela diretora e os meus pais sempre foram omissos nos meus estudos. Não era o caso do meu irmão, rebelde com os estudos, e não é o caso dos meus íntimos com filhos hoje. Mesmo quando os filhos vão bem na escola, parece que vivem uma constante tortura de dever de casa e desempenho.

Imagino como as pressões e preocupações de hoje em dia são diferentes. Os pais querem preparar o melhor possível os seus filhos para um mercado competitivo e o material intelectual que tem que ser coberto é muita coisa hoje em dia, sem levar em conta que o próprio trabalho intelectual – coisa ainda assegurada hoje em dia pelas máfias dos diplomas no mundo – está ameaçado cada vez mais pelo avanço da tecnologia, já que os computadores estão diagnosticando doenças e gerenciando contratos melhor que os profissionais tradicionalmente preparados para aquilo.

Assim, muito do trabalho gráfico do meu pai tinha ficado obsoleto pelo computador, mas o olhar artístico dele ainda era muito procurado. Por isso, se eu tivesse filhos, acho que faria como o meu pai e ensinaria como observar a beleza e instruir a linguagem dos elementos atrás do belo e os deixaria criar. Ensinaria como fazer as coisas com a mãos para resolver os constantes problemas da vida, seja cuidar da saúde, alimentação, lar e roupa, ou cuidar de animais e plantas. Cobraria a disciplina deles em todas suas criações, instruindo-lhes a cumprir suas palavras com o melhor da capacidade deles, porque – nas palavras do escritor indonésio Andrea Hirata, no seu adorável romance sobre uma escola paupérrima com uma única professora, inusitada, Os Guerreiros da Esperança (The Rainbow Troops) – “Independente do tipo de trabalho que fizermos, temos que fazê-lo com disciplina. Com atitude ruim, até os mais talentosos são inúteis.  (“No matter what kind of work we do, we must have discipline. Talented people with a bad attitude are useless.”)

“E se teu filho virasse um artista conceitual?” perguntou-me o Wladimir, depois de ouvir aquelas histórias e pensamentos.

Engasguei no gole de cerveja e quase cuspi. Ri não só da dúvida sagaz, mas do meu próprio reflexo que disse tudo, embora sem querer.

“Greve de fome!” respondi ainda engasgando. Recompondo-me, eu continuei: “Bom, largo a cerveja e tomo um chá extraforte de aceitação, né? Mas ele jamais mata nenhuma aula!” Refletindo já com um pouquinho mais de seriedade, concluí: “Bom, que seja o melhor artista conceitual que existe, então”.

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Cloudgate photo by Carrie Welsh

O melhor que tenho visto fica na praça ao lado daquele museu que visitei no dia em que o meu pai me flagrou matando aula, mas naquela época a obra ainda não existia. Foi só em 2006 que o gigantesco Cloudgate, pelo famoso artista Sir Anish Kapoor, tornou-se um símbolo de Chicago. Aquela massa sólida de aço inox parece fluída, como uma gota enorme de mercúrio que reflete tudo e toda a cidade ao redor. É simplesmente linda.

Li uns textinhos tentando desdobrar aquela escultura que é conhecida localmente como O Feijão, devido ao formato que tem. Fala-se da “dimensão de ambiguidade”, “abstração, reflexão e luminosidade”, “o contrapeso de espaço e tempo” e outros conceitos vagos, escritos rebuscadamente, mas sem convencer. O bom de ficar mais velho é não ter que fingir que entendeu um texto que não diz nada. Mas não há falta de interpretação de texto que iniba a apreciação do Cloudgate. Repito, é lindo.

Contudo, se é que a escultura me leva a refletir em conceito algum, o questionamento de quem é o seu verdadeiro autor é interessante. A ideia – o conceito – da obra pode ter sido do Kapoor, mas ele, efetivamente, não fez nada daquilo. Foi um projeto entregue a toda uma equipe de engenharia, que não só desenhou a obra, mas que teve que criar técnicas completamente novas para soldar e polir tais chapas de aço até virar um espelho fluído, e fazer aquilo no local. Na verdade, foi desenhado por outra cabeça e outras mãos e depois executado por muitas outras mãos.  No caso, se eu fosse o artista, não sei se teria coragem de me apropriar dele como minha criação.

O conceito, para mim, então, me leva a refletir até onde somos os únicos e exclusivos autores das nossas criações. Definitivamente ninguém é, porque muitas coisas colaboraram em um determinado momento para realizar um desejo. Embora possamos escolher nossas ações, os resultados das nossas habilidades e esforços não são da nossa escolha. São entregues por um universo que não controlamos.

Senão, o meu pai não teria me pego em flagrante aquele dia, mas tampouco poderia ter me ensinado depois a beleza de ver até as mais queridas criações com uma certa distância, deixando-as fluir, passando na frente da janela, sem vê-las e sem nenhuma necessidade de se apropriar delas.

Autoria é um assunto muito mais complexo do que se imagina. Engraçado é que, para muitos intelectuais, talvez seja a única coisa que não é. São rápidos para designar a importância da autoria da ideia, em cima de quem implementa e colabora. Por isso as palavras do Wladimir reverberam no meu ouvido. Pode o trabalho intelectual ter mais valor do que o manual?

Depois de ser interrompido na mesa por um poeta ambulante que vendia seu livreto, eu perguntei ao Wladimir: “Então, você acha que a faculdade te preparou para fazer o trabalho que faz hoje?”

Refletiu no copo dele antes de responder, “Não. Não muito. Só que na faculdade tinha muita observação, focada e repetida. Para reformar aquelas mãos do escudo deslocado, por exemplo, utilizei uma observação intensa lá. Talvez isso sim tenha sido desenvolvido na faculdade. Mas hoje em dia o meu trabalho é resolver problemas.”

Pois é, pensei, lembrando da história dele sobre seu Antônio e a arquiteta. Ela tinha um carimbo que lhe assegurava um salário mais alto do que o de quem de fato resolvia o problema da sua responsabilidade. Em um mundo cada vez mais competitivo e polarizado — onde a tecnologia beneficia e ameaça a todos ao mesmo tempo que não há consenso até onde valem aqueles carimbos e patentes que protegem propriedade intelectual individual em detrimento da sociedade – tenho minhas dúvidas até quando isso vai ser sustentável.

Com uma olhada para a rua, vi os mais tardios trabalhadores ainda esperando no ponto do ônibus que nunca chega para subir o morro de Santa Teresa. Com as mãos carregadas de mercadoria, esperaram e se desesperaram, com suas caras derretidas de cansaço.  O poeta passou na frente deles e foi embora. Vi como os passageiros trocaram palavras entre quase desconhecidos. Do bar não conseguia ouvi-los, mas por experiência já sabia pelos olhares que tinham verificado o tempo de espera do ônibus, até para se informar se tinha tiroteio lá em cima no bairro alto.

Independente de talento, o valor do teu trabalho vai refletir aonde e como se mora.

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vista do Morro da Conceição, Rio de Janeiro, por Ricky Toledano

“Que estão fazendo os seus colegas de Belas Artes hoje em dia?” lhe perguntei.

“Uns são carnavalescos. Um é tatuador. Uns funcionários públicos. Um grafiteiro. Um fotógrafo. Um pintor de parede. Como falei, o trabalho manual dificilmente é valorizado, ninguém fez aquela faculdade para ficar rico. Faz porque adora criar. Também gosto, mas na restauração aprendi execução manual, como tivesse realmente fazendo trabalho artístico, componho parte de vida, dou vida nova para o antigo. Vejo as camadas de tinta através de séculos, várias peles, registros, cada uma contando uma história… O meu sonho seria um programa ‘Restaurador Sem Fronteiras’ e pegar aqueles prédios antigos no México ou em Cuba. Ver o mundo um pouco, como fazia o meu pai.”

“Ele viajava?” perguntei.

“Era militar. Foi um dos integrantes da Força da Paz que foi para Gaza. O Batalhão Suez. Conheceu coisas e pessoas diferentes…”

“Engraçado… meu pai também foi militar, mas foi para lugar nenhum, depois de chegar nos EUA do México com vinte e poucos anos – não muito diferente de como você chegou aqui no Rio de Janeiro. Ele se inscreveu no serviço militar nos anos 40, mas só não foi à guerra na Europa porque descobriram o talento dele. O general do batalhão não abriu mão do meu pai de jeito nenhum: tinha que ficar ao lado dele, desenhando todas os mapas e apresentações.”

“Realizando os conceitos do cabeção?”

“É. Por ai! Alguém tem que fazer, né? Melhor do que ir à guerra. Senão talvez eu nem tivesse nascido. Viu como a gente não necessariamente é o autor da nossa história?”

Ching-ching. Brindamos.

O dia já tinha virado noite na Lapa. O clima dos trabalhadores indo e vindo do centro mudou-se para outro animado, às vezes pesado, como o eixo da cidade para onde se foge para se distrair.

Nunca vou saber se o meu pai soube como eu me distraía e como me presenteava um dia de folga semestral para ir à praia ou o museu de arte – muito menos como eu conseguia fazer aquilo sem ninguém ligar para ele. Já não preciso escrever cartas forjadas, mas de vez em quando, até hoje, quando me canso das minhas disciplinas todas, tenho uma receita ótima para um forte chá de sumiço. No último dia de folga que me concedi, quieto e livre das minhas responsabilidades, andei tranquilo e devagar numas ruas do Rio Antigo. Talvez eu já tivesse apreciado aqueles velhos sobrados e casas por onde passei, mas não tinha reparado nas gárgulas e leões, os lírios e rosetas, os santos e cavalos e abacaxis, as mãos e escudos, números como 1898 ou 1905. Todos pendurados e sustentando tetos e parapeitos, adornando janelas como molduras, feitos por grandes artistas desconhecidos com receitas perdidas, para embelezar todo um mundo ao redor. Parei na porta de vários ao me perguntar: quem será que fez aquilo?

 

 http://barrocarestauros.com/

 

Agradecimentos

Todos as fotos do Wladimir Alberto Martins são autorretratos e foram gentilmente concedidas pelo mesmo.

Muito obrigado a Liane Sarmento pela revisão do texto.

Posted by

A native of Chicago, Ricky Toledano has lived in Rio de Janeiro, Brazil for over twenty years as a writer, translator and teacher. [a]multipicity is multi-lingual collection of reflections through the humanities.

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